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No dia 05 de Outubro, o músico e académico Isaú Meneses lança, na cidade da Beira, o livro “A cidade da Beira e o diálogo de suas gentes. No livro são abordados vários temas, com destaque para os dois conflitos que envolveram alguns dos grupos étnicos que habitam a Beira. Sobre os dois conflitos ― o primeiro se deu na década de 1970 e outro na década de 1990 ―, Isaú Meneses afirma que há percepções erróneas, até entre investigadores. Portanto, o livro vem, diga-se, para dissipar equívocos. De resto, a principal conclusão trazida por Isaú Meneses é que cidades que congregavam várias etnias, como a Beira, têm o potencial de gerar muita criatividade. Acompanhe a entrevista exclusiva que antecede o lançamento do livro.

Começamos com uma curiosidade: consta que o senhor é natural de Chimoio, mas identifica-se muito com a Beira. O que está por detrás dessa ligação com a Beira?

Primeiro, é preciso recordar que o conceito de naturalidade, como ele é aplicado, tem um sentido europeu, portanto, onde a pessoa nascer é natural de lá. Naturalmente, é assim em toda a parte, mas isso não significa necessariamente que essa pessoa é cultural e socialmente desse sítio. Então, o meu pai foi transferido da Beira para Chimoio, era pintor. A minha mãe, que estava à espera de mim, foi com ele e eu nasci lá. Ainda fiquei três anos em Chimoio, e, depois, os meus pais voltaram para Beira, porque a missão do meu pai tinha acabado e o resto da vida continuou lá.

Consta que também passou por outros lugares…

 Emigramos para monte Siluvo. Depois, fomos viver em Zimpinga. Eu ainda, por um ano, fui viver em Harare. Mas os meus pais são de Caia, de Muraça. Meu pai é do regulado Sachombe e minha mãe do regulado Nhalúguè.

O que se pode saber mais da sua socialização?

Naturalmente, eles [os pais] fizeram questão de transmitir para mim, no processo de socialização, a língua e a cultura, e porque vivi mais tempo na Beira, tudo aquilo que sai daqui do meu interior, da minha alma, tem que ver com a Beira. As minhas origens estão presas aqui. É evidente que, por meu cordão umbilical ter caído no Chimoio, tenho uma relação particular com Chimoio. Todas as férias que eu puder passar fora, faço questão de passar por Chimoio.

A sua passagem por vários lugares faz de si um corpo em que dialogam várias gentes, como a Beira. Considera-se uma Beira personificada?

Sim. Em termos biológicos, não há muitas gentes. Sou filho de pais naturais de Caia. Mas, no processo de socialização tive influências de várias gentes, tive influências dos senas, naturalmente, que é o meu berço, tive influências dos matewes. Depois, o ano que fui viver no Zimbábwè, acabei aprendendo shona, o que me criou outras influências. E depois, vivi em Portugal, quando estava na formação superior. Então, por detrás disso tudo, há muitas gentes que, de alguma forma, exerceram influência no meu processo de socialização.

No livro, o senhor escreveu: “dos 53 municípios existentes até 2016, a cidade da Beira aparece como a única em que se pode ouvir a cantar num funeral ou numa mesma missa, três a quatro cânticos em línguas nacionais diferentes…” É este o exemplo do diálogo cultural das gentes da Beira?

É um dos exemplos desse diálogo cultural de gentes que viveram e vivem na cidade da Beira. Eu tive uma educação muito baseada na igreja. Quando passei pela Catedral da Beira, onde tive catequese, por aí aos 14 anos, reparei que os cânticos que eu aprendia e que todos nós cantávamos eram em línguas chuwabo, chitswa, sena e língua ndau. Também cantava-se noutras línguas, como nyanja e citewe. Andei por quase todo o país e, por onde passasse, aos domingos, sempre fazia questão de ir à missa. Nas 11 cidades capitais, nunca ouvi uma missa em que se cantou com tanta diversidade linguística como acontecia na cidade da Beira.

Essa diversidade linguística ficou beliscada com incidente de 1991, pois não?

Quando a Igreja Católica decidiu, em 1991, introduzir o ndau como a língua litúrgica, houve muitos problemas e, de forma errada, as pessoas dizem que aquilo foi um conflito entre senas e ndaus. Aquilo nunca foi um conflito entre os senas e ndaus, foi conflito entre a Igreja Católica e outras etnias diferentes do ndau, que se viram limitadas, ou com suas expressões culturais coarctadas por causa daquela decisão. Não eram só os senas que não podiam cantar na sua língua, mas também os matswas e os chuwabos. Então, o que aconteceu é que todos se juntaram aos senas para falar alguma coisa. Da mesma maneira que aconteceu na famosa luta dos senas e chuwabos.

Essa que o senhor considera uma “pseudo luta”?

O que é falsa é a designação, não luta entre senas e chuwabos. É luta entre os chuwabos e muitos outros que estavam a ajudar os senas. Estás a ver como é que o conflito surgiu?

Como surgiu?

Surgiu num belo dia, em que um par de namorados estava numa diversão, vulgo tchinguere. E um moço chuwabo zangou-se com a namorada e assassinou-a, abrindo-lhe a barriga para retirar o feto, porque ele não assumia a paternidade, uma vez que ela insistia em dizer que aquele filho era dele. A seguir, o moço pegou num rádio e o introduziu no ventre da rapariga. Isso chocou os familiares dessa moça, que eram senas. As restantes etnias saíram a favor dos senas.

O que recomenda para se evitar essas interpretações dúbias?

Primeiro, é preciso aprender que, quando se está perante um fenómeno, é muito importante estudá-lo, percebê-lo e interpretá-lo bem. Segundo, é preciso estar atento a pessoas que têm facilidades de deturpar a verdade. Porque eu me lembro que em 1991 ou 1992, fui entrevistado por um investigador que veio de Maputo. Ele disse-me que vinha estudar o conflito entre os senas e ndaus. Logo, à partida, ele tinha um objecto de estudo errado, mas estava convencido de que ia estudar aquilo.

No livro aborda a génese de algumas palavras que ganharam um sentido diferente do original. A palavra matchonas é uma delas…

Acho que a percepção que muitos de nós tínhamos, ali na Beira, é que “matchona” era a pessoa que passava a recolher lixo com o carro da Câmara. Mas, “matchona” refere-se à pessoa que migrou de um lugar para um outro e ficou muito tempo lá. E, na circunstância, se referia, maioritariamente, a pessoas que vieram de Angónia, que falavam nyanja. Por ironia do destino, a maior parte deles acabou tendo emprego na Câmara Municipal. Então, eles recolhiam o lixo e falavam a língua deles, bastavam ouvir essa língua, diziam: está a passar matchona”. Migraram para aqui e ficaram de vez.

No II capítulo do livro, fala dos efeitos perversos da multietnicidade. No caso da Beira, como se podem evitar esses efeitos perversos?

É preciso que se divulgue este pensamento, sem descurar a verdade de a Beira ser uma cidade cujas povoações originárias são senas e ndaus. É preciso continuarmos a dar espaço cultural, social e geográfico a todos os que vêm para viver na Beira e para se assumirem como beirenses. Felizmente, isto está a acontecer. Mas precisa de ser promovido de forma consciente. Porque, não há dúvidas que na cidade da Beira, quando alguém diz que é beirense, não lhe perguntam logo “você é beirense, fala o quê?”. Não. É beirense, somos beirenses, tudo bem. E a pessoa pode falar fluentemente sena, fluentemente ndau, e não ser originariamente dessas duas línguas. Eu costumo dar o exemplo do meu Director Geral, Filimone Meigos, que é de Inhambane, mas não sabe falar a língua de Inhambane. Entretanto, ele fala bem a língua sena e, na Beira, ele é aceite perfeitamente.

No seu livro, o senhor defende que a multietnicidade gera criatividade. Quer comentar?

Procurei precisamente mostrar quais são as vantagens da convivência harmoniosa de muitas etnias. Porque, quando há muitas etnias, em princípio temos um repositório de várias culturas. Por detrás de cada etnia há culturas, nas culturas encontramos hábitos e costumes, danças canções, ritos de passagem, etc. Então, isso enriquece. Portanto, quanto mais multiétnica for a humanidade, mais riqueza tem. E essa riqueza pode ser, naturalmente, criatividade, porque cada um, escreve o seu poema, com base naquilo que foi sua socialização.

O seu livro abre com um poema sobre o Idai e fecha com outro sobre Coronavírus. Quer justificar?

Na primeira edição, só tem um poema, sobre o Idai, no princípio. Na segunda edição, é que tem poema que versa sobre coronavírus. Fiz isso porque quis dar um formato e um estilo diferente a este livro. Como artista e como académico, misturar as minhas influências. Fiz um livro de pesquisa científica, pesquisa sociológica, mas abri o livro com a parte artística minha. Que é de escrever poemas. Muitas pessoas não sabem que eu escrevo poemas.

Queria dizer algo que não lhe tenha perguntado?

Quero que saibam que eu levo a Beira no meu coração. Por isso, terei muito gosto em estar com todos vocês, no dia 5 de Outubro, na Solange Beach Club, para, desta vez, não actuar como músico, mas falar como um investigador, como um académico. Naturalmente, vai ser uma escola para mim, a experiência que cada um trouxer, será superior à experiência que eu trago. Por isso, mesmo, aguardo por todos. E agora, muito obrigado à Editora Fundza, que é uma editora nova, mas que está a fazer um esforço visível de aparecer e felizmente está a aparecer bem. Está a publicar livros científicos e livros artísticos. Parabéns a todos os colaboradores da Fundza.

A Editorial Fundza é uma editora moçambicana que procura dar oportunidade e visibilidade aos novos escritores moçambicanos, agenciando-os para que se tornem escritores de sucesso.

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