Blog

 É no Maputo onde está enterrado o seu cordão umbilical. Mas foi a cidade da Beira o teatro das operações da sua infância. Motivo mais que suficiente para que Manuel Mutimucuio homenageasse a segunda maior cidade do país no seu livro de estreia, “Visão”, lançado a 17 de Agosto, no Centro Cultural Português em Maputo.

Mia Couto, outro beirense, foi quem fez a apresentação do livro. Sensibilizado pela história da obra, o autor de “Terra Sonâmbula”, como tem sido frequente, aceitou ser o padrinho do livro. A disponibilidade de Mia justificou-se também por outros motivos, confessados emocionalmente, na ocasião. “ Para mim, é uma emoção muito grande estar ao lado de um escritor beirense que publica um livro por uma editora beirense, dirigida também por um jovem da Beira, com quem comunico há bastante tempo”.

Emocionado também esteve Manuel, o escritor da noite que, violando os preceitos da sua tradição, se banhou em lágrimas destinadas aos seus pais, particularmente à sua já falecida mãe, por lhe terem dado os alicerces sobre os quais constrói a sua vida, como confessou. E apresentou provas. “O evento de hoje é um testamento à vossa lição”, revelou.

Poder escrever e publicar um livro, segredou-nos Manuel, foi o que sempre o fascinou. E quando decidiu “passar da hesitação à acção”,  o autor preferiu escrever sobre a cultura das Organizações Não Governamentais às “líricas de paixões do secundário”.

VISÃO e AfriMozAid são as duas ONGs descritas na obra, mas é a primeira que dá título ao livro. A mesma é dirigida por Enoque Pita, um personagem sem pretensões de ser herói, que podia até ser o nosso colega do serviço, segundo Mia Couto.

“Ele é um cidadão comum, que podia ser o nosso colega do serviço e os conflitos individuais que enfrenta são reais, por exemplo o de ter uma esposa e uma amante ou que podia ter um caso com a secretária”, reforçou o apresentador da obra.

Para Mia Couto, o livro de estreia de Manuel Mutimucuio pode ser o indicativo de que uma nova geração de escritores, que diz que há aqui “um outro Moçambique que se afirma urbano, moderno, que já não olha para as histórias contadas à volta da fogueira, com o avô”.

É um Moçambique, continuou Mia Couto,  que está do lado do computador, do lado do ecrã. “Por isso, não é menos Moçambique. Não podemos ter o sentimento de que existe um lugar mais puro”, concluiu.

As palavras do mais premiado escritor moçambicano soaram como uma crítica à sua própria geração, e não só, que, “sobretudo através da prosa literária, falou sempre de um país sonhado, andou à procura de uma identidade nacional e esqueceu-se de que podiam existir várias identidades”.

E tal identidade nacional residia no campo ou no passado, segundo Mia Couto. De resto, é com muita alegria que Mia Couto vê quebrar-se esse paradigma por autores jovens, como Manuel Mutimucuio.

“A primeira impressão que tive, ao ler o livro [Visão], é que as suas vozes falam da realidade do nosso quotidiano, moderno, diferenciando-se de outras vozes que dizem o que nós deveríamos ser, e não o que somos. Isso é cativante”, confessou Mia Couto.

Cativante é também, para Manuel Mutimucuio, ter a escrita como um “refúgio perfeito para ser um cidadão activo sem, no entanto, ter de abrir a boca”. A boca, essa, parece que não obedeceu e deixou escapar as seguintes palavras:

“Visão é um ensaio sobre as perguntas incómodas que devemos fazer sobre o desenvolvimento, sobre o Estado, sobre as ONGs, sobre a relação muitas vezes incestuosa entre os doadores, implementadores, governos e beneficiários”, explicou Manuel Mutimucuio.

Para estas perguntas incómodas, os leitores poderão encontrar respostas nas 104 páginas do livro que, segundo o autor, não tem um desfecho clássico, daí Manuel não esperar conclusões de nenhum leitor.

Talvez por não ter o tal desfecho clássico, o autor de “Visão” não conseguiu evitar uma pilha de perguntas de jornalistas, todas com um “denominador comum”. Queria-se saber se as ONGs são boas ou más para o nosso país. Eis a resposta com que Manuel “brindou” a quase todos os jornalistas:

“Nem tudo na vida tem que ser necessariamente dicotómico, dividido entre o preto e o branco, pode ser que apareça um cinzento.

Manuel Mutimucuio nasceu em 1985, em Maputo, mas teve os seus anos formativos na Beira. Possui um Mestrado em Gestão e Administração de Negócios e uma Licenciatura em Planeamento do Turismo.

A Editorial Fundza é uma editora moçambicana que procura dar oportunidade e visibilidade aos novos escritores moçambicanos, agenciando-os para que se tornem escritores de sucesso.

Facebook

Newsletter

Subscreva a newsletter e receba novidades acerca das nossas publicações.