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Nascido em Massinga, província de Inhambane, em 1961, Martins Mapera (também conhecido por Mar Zé TinShel) estreia-se na poesia publicando, pela Editorial Fundza, "Poema aberto e a tela de diversidade", obra que procura transportar para o lirismo diversas realidades, que vão desde familiares a nacionais.

O livro será lançado às 18 horas do dia 21 de Setembro, na Casa do Artista, Beira, numa cerimónia em que o autor espera viver uma "emoção de paternidade simbólica". E os leitores? Para estes, o autor reserva a função estética da arte, o deleite, a beleza, "que é, por sua vez, a estética das mazelas do espírito, da indignação, da curiosidade, da novidade".

Você lança agora o seu primeiro livro de poesia, 21 anos depois de ter publicado primeiros poemas na revista Tempo. Porque essa demora?

Não comecei a publicar o texto poético pela revista Tempo. Oficialmente escrevo nas notas biográficas que começo a publicar em 1996. Mas foi no ano anterior que se publicou o primeiro poema intitulado “Para um amigo”.

Que amigo era esse?

O poema é um retrato imaginário que “nasceu nos meus olhos” polimórficos e polissémico, embora as marcas textuais não parecem visualizar isso. Mas trata-se de um amigo que nunca existiu de corpo e alma, ele estava apenas do campo imaginário, no campo onírico. Não cheguei a saber que o texto tinha sido publicado.

Mas depois continuou a publicar?

Nunca gostei de me expor, nunca quis deixar as mazelas do espírito, as vicissitudes que dominam o terreno das emoções, dissimularem diacrónica e sincronicamente a esfera simbólica da sociedade. Talvez este facto justifique essa letargia.

 Como ganha sensibilidade pela poesia?

Na nossa vida, nas conversas que entabulamos com os amigos, com a sociedade, há, na verdade, um mecanismo interno de narrativização mítica e emotiva da realidade; há uma poesis que se evade dos cárceres do espírito para o mundo vagabundo da realidade.

O seu livro intitula-se “Poema aberto e a tela diversidade” e sugere que os leitores entrem ou se revejam nele. Quer comentar…

"Poema aberto e a tela da diversidade" provém de uma realidade transubjectiva. Ele procura liricizar realidades diversas. Por isso, é provável que o conteúdo poetizado interpele determinados fenómenos realísticos. Gilbert Durand disse uma coisa inspiradora, a propósito da espiritualidade e do universo simbólico, que tomo de empréstimo para caracterizar a natureza da minha obra: “Na boca de um filósofo como Platão ou de um antropólogo como eu, [‘a guerra dos deuses’] não é senão um sinal de humildade: a sabedoria humana, como a ciência humana, não podem senão deter perante esse limite, para lá do qual se articulam as teologias ou, melhor ainda, as místicas”.  

O seu livro é também sinal de humildade?

É uma espécie dessa “guerra dos deuses” no sentido antropológico do termo, e não necessariamente no sentido teológico, como refere Gilbert Durand, embora o próprio poema que dá título ao livro, dedicado a Emmanuel, a Craveirinha, Noémia de Sousa e a Malangatana, mostre essa ligação da realidade com a espiritualidade. A obra pretende, simplesmente, aquilatar o terreno da subjectividade realística.

No livro, há pelos 4 poemas que dedica a ente queridos seus. Acha que a poesia ajudou-o preencher os vazios deixados?

Na sua generalidade, os poemas que corporizam esta colectânea são uma dedicatória à vida. Nós celebramos as nossas amizades com pessoas vivas e com pessoas mortas todos os dias.

Como assim?

A forma como isso se processa é, obviamente, diversa. Antropologicamente, e no contexto da geografia destes textos, os mortos são celebrados através de bebidas, curiosamente, mesmo aqueles que em vida não bebiam álcool, ou por sacrifícios de animais (galinhas, cabritos, caracóis e lagartixas – risos), derramando o seu sangue sobre a terra para simbolizar a dor e o desassossego.

“Todo o morto/deseja ser plantado/como uma árvore”, são versos de um poema seu. Constata existir demasiada negligência na nossa sociedade, até com os mortos?

A negligência era comigo próprio, que adiei por muito tempo o plantio dessa árvore mítica da vida. Digo isso porque o mito vai ao encontro da história, examina-a e legitima-a, da mesma forma que o discurso veterotestamentário e as suas imagens garantem a autenticidade da história do Carpinteiro para um cristão.

Chegou a ser penalizado por essa negligência?

Sem a legitimação/adoração dos mortos, na minha cultura, não há sossego. Os mortos são a nossa luz, porque são eles que nos dão a força de viver para continuar a sua obra. Eles são a estrutura antropológica que nos proporciona a inteligência histórica e cultural. A morte provoca um hiato no cerne da vida, na medida em que rompe os laços da vida com a comunidade, separa o homem dos seus afazeres, cria distância entre o morto e o vivo. A morte não é, pois, o desenlace, o último passo da história, o fecho final. É, pelo contrário, o devir que não cessa de vir.

Em muitos versos seus, parece que se esconde um poeta indignado. Espera ser lido desse jeito e beneficiar do "socorro" dos leitores?

Tudo o que ocorre numa obra de arte, como o poema, a música, a pintura, o filme, a novela, deve ser lido com a necessária ponderação da deriva subjectiva das metáforas e das imagens.

Não concorda com a leitura?

A arte tem a função estética, ela serve para os interesses do deleite, do belo. A beleza é, por sua vez, a estética das mazelas do espírito, da indignação, da curiosidade, da novidade. É verdade que a arte transcende os limites de tempo e espaço, das realidades culturais, descortinando sentidos e sentimentos do presente e, se for necessário, reeditando o passado como refúgio para a busca de inspiração.

Você é também crítico literário. Consegue estabelecer a fronteira entre a poesia e a crítica?

Não há fronteiras geográficas entre a arte e a crítica, porque na verdade, a crítica resulta do exercício da leitura. Nós precisamos de ler para escrever e a poesia é produto inequívoco desse dom de leitura inspiradora, a crítica literária.

O seu livro será lançado na Casa do Artista, no dia 21 de Setembro. Que expectativas guarda para este primeiro lançamento?

A emoção é de paternidade simbólica. Quando geramos um filho, esperamos que ele seja um filho educado e que saiba ser e estar perante a família e a sociedade. É essa imagem que espero do livro, de uma publicação que contribua para o reforço dos mecanismos de abstracção e ajude a promover o sentido da leitura e da crítica. O livro deve saber estar em comunhão com a realidade subjectiva da vida.

Pode, justificando, sugerir um poema do livro aos leitores?

Há um poema autobiográfico, curto, mas profundo que diz o seguinte:

Sou um vento!/ Venho doutra atmosfera,/ do universo dos delírios/ a arreigar a mente,/ que compenetra no húmus ensolvado,/ obreiro de caos térreo,/ provenho da lava / edénica furtivo,/ da água de todas as vidas,/ em prol da brisa morena.

Este poema tem uma mensagem especial?

A principal mensagem é esta. Temos que ser a água de todas as vidas para justificarmos o sentido da diversidade. E só assim construiremos a paz, “em prol da brisa morena”, do bem-estar e do desenvolvimento.

“Uma autêntica lufada de ar fresco no panorama da literatura de Moçambique”,écomo Vasco Galante descreve o livro de estreia de Manuel Mutimucuio, nosso entrevistado desta edição. VISÃO é o título do livro, o qual começou a ser escrito no estrangeiro. Mas foi em Moçambique que ganhou forma e terá a sua primeira cerimónia de lançamento em Agosto próximo.

A Editorial Fundza é uma editora moçambicana que procura dar oportunidade e visibilidade aos novos escritores moçambicanos, agenciando-os para que se tornem escritores de sucesso.

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