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Temos a tendência generalizada de buscar atalhos

“Uma autêntica lufada de ar fresco no panorama da literatura de Moçambique”,écomo Vasco Galante descreve o livro de estreia de Manuel Mutimucuio, nosso entrevistado desta edição. VISÃO é o título do livro, o qual começou a ser escrito no estrangeiro. Mas foi em Moçambique que ganhou forma e terá a sua primeira cerimónia de lançamento em Agosto próximo.

O romance, que descreve o percurso de Enoque para tornar conhecida a sua pequena associação, pretende, segundo o autor, “convidar os profissionais de desenvolvimento a fazerem uma introspecção sobre a sua cultura”. O convite é extensivo a todos nós porque a realidade nos é familiar, “mas que o Manuel, com a notável simplicidade e extraordinária fluidez da sua linguagem, salpicada de cor e fina ironia, contextualiza de forma excepcional.”, refere António Branco.Então, esperamos que gostem do livro, mas antes, da entrevista que se segue.

Você trabalhou 10 anos em ONGs. Terminado esse período, decide brindar o público com um romance, retratando uma dessas organizações, a VISÃO. Por que partilhar esta experiência em livro?

É uma asserção verdadeira que tenha trabalhado em Organizações Não Governamentais, mas o livro não é uma autobiografia dessas experiências. É completa ficção. Com excepção de Sofala, espaço geográfico que decidi homenagear nesta obra inaugural, pelo lugar especial que lhe reservo na minha vida, os outros lugares e personagens são imaginários.

A minha intenção ao escrever este livro é convidar os profissionais de desenvolvimento a fazerem uma introspecção sobre a sua cultura. Mas como o tema “desenvolvimento” é transversal, penso que o livro é também uma pequena janela para reflectirmos sobre as escolhas que temos estado a fazer como nação.

Para isso, que recursos podemos utilizar?

A arte é uma das melhores plataformas para navegar em assuntos susceptíveis de levantar muitas paixões sem nos deixarmos classificar em categorias absolutas, porque permite transmitir nuances. Não há duvidas de que o livro é crítico, mas, ao humanizar as decisões dos personagens, tenta relativizar quaisquer conclusões

“Todo o mundo abomina a política até ser chamado para um cargo”, afirma o personagem Enoque. O livro está prenhe de denúncias de hipocrisia na nossa sociedade. Quer comentar…

O título provisório deste livro era a “Letargia do Desenvolvimento”. Nele estava definido o paradoxo dos vários eventos que corporizam a estória, mas acabei desistindo desta descrição porque podia dar a falsa ideia de ser um livro técnico, quando na verdade não passa de literário. Do mesmo modo, extrair passagens do livro pode ser enganador. Prefiro que cada leitor descubra o texto e tire as suas próprias ilações.

Lido o livro, fica-se com a sensação de não ser genuína a filantropia praticada por muitas ONGs. Pode comentar, tomando em consideração o caso da personagem Agnes Olsson?

Penso que a realidade é muito mais complexa do que isso. Existem, naturalmente, algumas ONGs mais altruístas que outras. O que pretendo discutir com o personagem AgnesOlsson, no entanto, é o dilema dos expatriados. Será que constituem uma elite que vive num conforto que os torna incapazes de entender os problemas que julgam querer resolver? Será que fazem o trabalho que fazem como uma missão, ou simplesmente como um emprego? Será por escolha que deixam o conforto dos seus países para viverem em países com as limitações que o nosso tem? Será que são indivíduos que tecnicamente não conseguiriam papéis proeminentes nos seus próprios países e o trabalho no dito terceiro mundo é um refúgio?

“Visão (…) é um testemunho de uma  realidade que todos vivenciamos”. Esta é a leitura de António Branco, antigo governante moçambicano. Qual foi a sua preparação estética, de linguagem, para abordar esse assunto “corriqueiro”?

Francamente, nenhuma. Para além de ter tido uma instrução académica relativamente sólida, socorro-me da minha experiência de leitor, do facto de gostar de textos corridos e estórias com alguma ressonância na realidade.

Que escritores lhe inspiram, tanto na forma como no conteúdo?

Penso que o conteúdo é original, mas no estilo, sou o resultado de tudo quanto já li ao longo dos tempos. Por conseguinte, é-me difícil particularizar algum autor.

Pode-nos falar um pouco da produção deste livro?

Comecei a escrever o livro quando estava a estudar no estrangeiro e ganhei muito mais consciência sobre a unicidade de Moçambique, tanto nos bons elementos, como por exemplo, a alegria genuína do nosso povo, mas também nos aspectos que considero negativos. A título ilustrativo, eu acho que temos a tendência generalizada de buscar atalhos para nos furtarmos ao trabalho de perseguir soluções árduas, mas que perduram. Desconfio que seja por isso que em 2017 fingimos resolver problemas que fingíamos resolver em 1977.

O seu livro sai já com pelo menos quatros leituras distintas. Acha que omesmo poderá acender um grande debate sobre as ONGs?

Em Moçambique ainda não existe muito a cultura de leitura. A fonte de informação para o debate social é marcadamente a televisão e os limitados caracteres das redes sociais electrónicas. Portanto, seria muita presunção pensar que um livro venha a gerar um “grande” debate, não obstante acreditar que os processos das Organizações Não Governamentais sejam particularmente importantes de se discutir, porque o nosso país ainda está longe de ser auto-suficiente e, por consequência, depende, mais do que seria saudável, da “boa vontade” de outros países.

Como foi o processo de edição do livro. Gostou de trabalhar com a editora deste livro?

Trabalhar com a Fundza foi uma experiência bastante pedagógica. É bom ter editoras como esta no panorama literário moçambicano, não só pela cobertura geográfica mas, fundamentalmente, por ter barreiras de entrada não proibitivas para escritores principiantes.

Esta é a sua estreia no mercado literário moçambicano. Que expectativas tem neste campo?

Poder publicar este livro despertou a vontade de escrever mais. Agora que falamos, estou a terminar o manuscrito de um tema que julgo crucial ser aflorado.

Pretende encarar a literatura de forma profissional?

É muito prematuro fazer afirmações categóricas. Todavia, até aqui, a minha fonte de inspiração tem sido os fenómenos que observo e participo na minha vida profissional.

 

Fonte: Revista Soletras

 

A Editorial Fundza é uma editora moçambicana que procura dar oportunidade e visibilidade aos novos escritores moçambicanos, agenciando-os para que se tornem escritores de sucesso.

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