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Diogo Vaz – Activista da prudência humana

“Os Novos Contos de Guicalango” é a última obra literária de Diogo Araújo Vaz, escritor moçambicano que em 2010 foi distinguido com o Prémio Minerva Central – 100 Anos e Maria Odete de Jesus, com o livro “Os Contos de Guicalango”, o qual o consagra como escritor. 

Seguindo a matriz temática e estética da obra premiada, “Os Novos Contos de Guicalango” é, de certo modo, a obra que eleva Diogo Vaz a categoria de activista a favor da prudência humana, condenando todo o acto desmedido dos seres racionais.

Natural de Inhambane e residente na cidade da Beira desde 2005, Diogo Vaz estreia-se profissionalmente na literatura justamente em 2010, com “Os Contos de Guicalango”, uma colectânea de contos em que narra a situação geral da sociedade moçambicana, com todos os seus vícios (e virtudes) – uma sociedade maioritariamente rústica e minoritariamente urbana e/ou urbanizada. Segue com “A Ira da Chama” (2012), romance em que denuncia o belicismo humano, atitude pela qual o homem chega a matar ou prejudicar o seu semelhante para alcançar os seus objectivos; “Diário de um positivo” (2013), retrato da vida de um seropositivo com todos os estigmas à volta; “Os Seguranças do Alheio” (2016), romance policial, descrevendo uma suposta inoperância dos agentes da lei e ordem.

Um pouco ao estilo de Eça de Queiroz, na temática de descrição da realidade das sociedades humanas, denunciado os seus vícios, os quais vão corrompendo o mundo e resvalá-lo num abismo sem precedentes (do qual jamais poderá sair); e na estática, pela adjectivação dupla ou múltipla do mesmo objecto, a mais recente obra literária de Diogo Vaz retoma a matriz temática e estética iniciada em “Os Contos de Guicalango” e continuada nos livros subsequentes, até 2016.

Mas é por meio da personificação e da alegoria que este autor consegue, e de melhor maneira possível, consolidar o activismo mundial que lhe vai na alma, drenando-o na sua escrita – uma escrita assaz profética e admoestadora. 

Vovó Guicalango, o narrador, no quarto conto “Discurso de Incendiário Confesso”, conta-nos o drama de um povo que tem de enfrentar os seus medos para ultrapassar a situação caótica a que por muito tempo esteve submetido. Aqui os animais assumem formas humanas, alegorizando os problemas trazidos pela globalização, que agora se revela um neocolonialismo, com as sociedades inteiras a serem “domadas”. Entretanto, no meio de tudo isso, surge um “libertador”, o qual usa métodos um pouco controversos para levar os seus à compreensão da real situação em que se encontravam: decide atear fogo e queimar a selva toda.

O rei é chamado a resolver o caso, mas primeiro tem de encontrar o “misterioso incendiário”. Na assembleia, as acusações chovem de todos os lados: “começaram a surgir vozes fortes que diziam que fora o mocho, por ser rancoroso e supersticioso e porque confiava nas suas asas agoureiras para fugir do sinistro. Outros, ainda, diziam que fora o chimpanzé, tão feio quanto a sua consciência, por ser fumador, imitando o Homem. Os mais coscuvilheiros diziam que fora o macaco, este que mais não fez senão se assemelhar assaz ao Homem”. (p. 48). 

Cada um e todos os acusados foram-se defendendo como podiam. Dizendo que ele próprio fora também uma vítima do fogo, o macaco exibiu a sua cauda “chamuscada pelo fogo até ficar encarnado e deformado”, pelo que não tinha culpa por “o Homem entender assemelhar-se” a ele (p. 50); os outros suspeitos também negaram as acusações que sobre si pesavam. 

Foi, então, que o legítimo incendiário da selva se revelou e confessou o macabro crime que cometera. A sua alegacão, mais do que uma confissão, foi um discurso libertador de toda a selva. “Vós fostes sempre servos daqueles que quiseram domar-vos e nunca reclamastes. Vossas plumas encheram os travesseiros do vosso senhorio, e nunca vos queixastes, vossa pele produziu os melhores artigos do vosso domador, que nunca vestistes, desde sapatos, casacos, cintos, pastas, chapéus e muito mais artigos, mas nunca vos reunistes para reclamar de tudo isso. Vossos ossos produziram os melhores pratos, nos quais vossas carnes foram sempre deliciadas pelo vosso domador, mas jamais vos queixastes. Vossos dentes, quais oferendas divinas, produziram dos melhores artigos de ornamentos de que o vosso senhorio sempre se gabou na sua camaradagem, mas jamais vos queixastes e agora não sabeis o que esta guerra significa para vós?” (p. 51).

Esta terá sido, então, a maior vingança dos animais à atitude do homem, pois eles sabiam que sem a selva e os animais o autodeclarado racional e superior a outros seres jamais sobreviveria. Era o apocalipse do Homem. 

Aliás, “Apocalipse” é título do segundo conto do livro, no qual somos levados a reflectir sobre as “consequências da autodestruição” do Homem (p. 33). Neste conto, destaca-se a capacidade superior que o autor tem em reinventar a história (da desgraça) da Humanidade – desgraça a si e por si próprio causada.

No princípio, “todos os animais eram cúmplices, amigos, e viviam solidariamente uns com os outros” (p. 28), até que o Homem decidiu educar “os seus descendentes como seres superiores em relação a outras espécies”, que, por sua vez, “se vingavam dos felizardos agasalhados, chacinando-os para lhes retirar as peles para o seu agasalho” e fabricaram lanças e azagaias “para atacar impiedosamente todos os tipos de animais a fim de alimentar os seus caprichos, pois se a carne não fosse boa o suficiente para a sua dieta, então seriam retirados os dentes, os ossos, os chifres, as garras ou as peles para servirem de ornamentos ou brinquedos”, o que “provocou a revolta de muitas espécies” (p. 28). “[Chamou] de predadores aos mais raivosos, domesticou os mais plácidos e inventou o fogo para se defender dos mais excitados” (p. 29).

“[O] Homem foi enchendo a lista de suas ambições e agora começara a ficar obcecado com a riqueza”, surgiram classes sociais, numa competição onde “a flora, a fauna, o subsolo, a brenha, o mar e até o espaço eram os troféus do jogo das ambições humanas”. E queriam expandir as suas tribos. “Por isso, foram derrubadas muitas árvores ainda, para a produção naval” (p. 29). Os “mais fracos eram domados e forçados à labuta nos campos” e nas indústrias, que “despejavam vorazmente os gases carbónicos sobre a atmosfera”, provocando o “aquecimento global” (p. 30).

Vingando-se dos furos a si infligidos na busca pelos recursos, “os oceanos e mares juntaram esforços para lançarem torrentes de água sobre a terra”; por sua vez, a terra “decidira vibrar … deita[ndo] tudo no subsolo, sem descriminar os seres, nem discriminar os tamanhos dos seres”. “E do céu abobadado caíram sobre a terra chuvas aciduladas” e “diversas enfermidades emprenharam o mundo” (p. 32). Até o próprio Vovó Guicalango se questionou se o Homem era o “superior de todos seres ou, simplesmente, o mais traquino de todos eles” (p. 33).

“Os Novos Contos de Guicalango” revela-se assim um livro de contos muito actuais, retractando a realidade da sociedade global, com todos os seus problemas; é, na verdade, uma obra profética em relação ao que poderá vir a acontecer ao Homem se não se travar a ganância deste pelos recursos naturais. É também uma chamada de atenção aos “controladores do mundo” no sentido de ponderarem os seus comportamentos em relação aos chamados “países do terceiro mundo”. Podemos dizer que Diogo Araújo Vaz não é insensível aos problemas mundiais, sendo pelo contrário um activista da prudência do Homem na sua relação com a Mãe-Natureza.  

 

Os Novos Contos de Guicalango,

 

Editorial Fundza, 113.

 

Fonte:  Revista Soletras

A Editorial Fundza é uma editora moçambicana que procura dar oportunidade e visibilidade aos novos escritores moçambicanos, agenciando-os para que se tornem escritores de sucesso.

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