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Por Danito Avelino

Resumo

Partindo de três corpus, nomeadamente, “o rei e os velhos”, “A mulher adúltera” e “Uma avó dura com a sua neta”, sendo todos contos moçambicanos, extraídos da tradição sena, povo este que se distribui pelas províncias de Sofala, Tete e Zambézia, procuraremos nos textos seleccionados identificar e analisar as marcas da relação entre idosos e crianças, ou seja, da cumplicidade existente entre a velhice e infância, cujos integrantes têm sido relegados para o segundo plano por razões várias.

Temática da idade nos contos tradicionais

A relação entre indivíduos das duas faixas etárias opostas, nas sociedades tradicionais africanas, remonta a um passado longínquo. Na clássica divisão de trabalho baseada no sexo e na idade, as pessoas mais frágeis fisicamente, nomeadamente, os anciãos ficavam com as tarefas menos duras. Não iam caçar animais na floresta nem sachar o solo para plantar, ficavam em casa a cuidar dos netos enquanto os pais destes se dedicavam ao trabalho braçal.

 Provavelmente, deste modo, nasce a cumplicidade entre os anciãos e os netos. Nesse encontro, os anciãos passam a ser os principais agentes educadores, entretendo os petizes com histórias moralistas. Estas histórias, contadas à volta da fogueira, mais do que entreter os mais novos eram uma das principais instituições que garantia reprodução social. Não havendo uma escola formal, os contos, as lendas, os provérbios e os mitos cumpriam a função de reprodução social. Os membros dessas sociedades materializam essa reprodução através dos ritos de passagem.

Como é óbvio, faziam parte dos ritos de iniciação, praticados em grande parte das sociedades moçambicanas, crianças em preparação para a fase adulta. Dirigem esses ritos, os anciãos, por serem considerados, na dimensão simbólica, sábios e virtuosos. Chevalier e Gheerbrant, citados por Oliveira (2011), referem que as sociedades vêem uma ligação entre a velhice e a sabedoria e a virtude, por seu longo acúmulo de experiência e reflexão.

O prestígio de que gozavam os anciãos foi caindo para a degenerescência quando a forma comunitária de viver foi-se perdendo, triunfando o individualismo. “Com o advento da sociedade burguesa, essa concepção de senescência foi perdendo o ar de sacralidade e transformando-se no desprestígio social que se associa a essa faixa etária actualmente” (OLIVEIRA, 2011, p. 1), incorrendo-se, deste modo, no risco de não haver pessoas que possam cumprir essa função de memória, que também social pela sua dimensão colectiva.

A actividade de rememorar perpassa pela função social do sujeito que, no presente, reconstrói os fatos passados. Tal função será exercida quando este sujeito, antes activo na sociedade de que faz parte, deixa de “contribuir” para o presente colectivo, alcançando o momento da velhice social que faz restar a ele apenas o encargo de lembrar, tornando-se a memória do grupo a que pertence. (NASCIMENTO & RAMOS, 2011).

Em África, a velhice já teve um papel de destaque na tradição oral. Era imprescindível que um contador de histórias fosse um idoso para que pudesse exercer educação sobre os mais novos, através da narração de histórias. Actividade essa que era seguida pelos griots.

Essa questão da idade é importante, pois a idade avançada, a velhice, é uma das características mais relevantes de um griot, visto que um narrador de memórias precisa ter, antes de tudo, memórias para narrar, além da sabedoria e da experiência de vida, coisas essenciais para um formador, que é o griot (Ferreira, 2012).

Os griots, que se popularizaram na África Ocidental pelo seu papel na preservação da tradição oral, são anciãos encarregues de transmitir aos mais novos as memórias do povo, da comunidade, por meio da narração de histórias.

Em Moçambique, há uma devoção aos anciãos, particularmente à sua palavra, mesmo estando apenas no domínio da oralidade. A respeito disso, Nascimento & Ramos (2011, p. 459) comentam nos seguintes termos:

As tradições vivem e se expressam no respeito aos mais-velhos, na importância atribuída à palavra falada, no costume de contar histórias e valorizar elementos da natureza, na reverência aos antepassados e demais elementos que identificam a formação de África. Observa-se que no período da independência de Moçambique, ocorrida em 1975, as manifestações literárias do país convocam a reflexão sobre o pós-guerra, o cenário modifica-se, sem, contudo, deixar de lado as questões relativas à tradição. A literatura não é mais unicamente um suporte de acções denunciadoras, mas quer cumprir também o papel de resistência à imposição cultural europeia. 

Como se pode notar, a palavra falada dos anciãos precisa da atenção de um ouvido receptor, dos mais-novos, estabelecendo-se, deste modo, uma comunicação entre o passado (anciãos) e o futuro (as crianças). São as crianças, muitas vezes vistas como bengalas dos anciãos, que deverão dar continuidade à cultura, por isso, justificar-se a protecção mútua entre os dois grupos etários.

Análise dos contos “O rei e os velhos”, “A mulher adúltera” e “ Uma avó dura com a sua neta”

No primeiro conto, da tradição oral moçambicana, o rei decide assassinar todos os anciãos do seu reino porque “só tinham ideias antigas” (Kulemba, 2016, p.23), com quais eram incapazes de embarcar para a modernidade, para o progresso. Como se fossem presas, os anciãos são caçados e mortos. Entre os anciãos que devem ser caçados e mortos está a avó de um jovem, que se enche de compaixão ante aquela barbárie. Decidiu esconder a sua avó até ao dia em que rei foi atacado por uma cobra gigante. “Passado um ano, quando ele estava a dormir, uma cobra grande entrou-lhe na boca. Aflitos, os súbditos do rei convocaram toda a população, para encontrarem uma ideia de como salvarem o chefe” (Kulemba, 2016, p.23). A população não tinha ideia nenhuma que pudesse salvar o seu rei. Nesse bloqueio, eis que aparece um jovem com seguinte proposta: “Eu tenho uma ideia. Vou chamar a minha avó, para salvar o rei” (Kulemba, 2016, p.23).

O grito do jovem deixou assustada toda a população que, em uníssono, reagiu: “Nesta região já não existem velhos, todos foram mortos pelo rei” (Kulemba, 2016, p.23). Como se deve imaginar, a população estava redondamente enganada porque o jovem trouxe a avó que estava escondida.

“Afinal o jovem, quando ouviu que o rei estava a matar todos os velhos, pegou na avó e foi guardá-la num buraco, que viu no embondeiro. Todos os dias, passou a levar comida para aquela árvore. Ele fez de tudo, para que a avó, a única pessoa que cuidava dele, não fosse morta” (KULEMBA, 2016, p.23).

As pessoas poderiam ter pegado num pau e empurrado lentamente a cobra, mas este acto poderia ser fatal. Mas que solução não traria efeitos colaterais? Isso seria revelado pela voz da experiência, a velha: “Diga-lhes para arranjarem um sapo, o qual deve ser colocado ao lado da boca do rei. A cobra, quando se aperceber da presença do sapo, irá atrás deste, deixando livre o rei”, (Kulemba, 2016, p.24), orientou a velha.

O rei é salvo pela velha, uma pessoa aparentemente frágil, desprezível, com ideias antiquadas. Isso representou uma grande lição de moral, tanto mais que o rei decidiu colocar o seu lugar à disposição e jurou nunca mais voltar a exterminar os idosos.

A situação história do extermínio dos idosos, no conto, parece inverosímil e sua produção resulta de alguma contestação a uma repugnante realidade, a desvalorização da figura do idoso e da sua memória. O narrador não nos dá evidência de como o tal acto deveria ter acontecido. Doutro modo, não temos evidências históricas de o episódio ter ocorrido em algum lugar.    

A morte massiva dos anciãos é uma hipérbole usada pelo autor para chamar atenção à desvalorização dos idosos. Era a falta da ausência de receptores, que valorizassem a sua antiguidade, que fazia com que os anciãos se sentissem mortos. E vai ser o jovem, com esse acto simbólico de convocar a avó para solução de um problema bicudo, a fazer ressuscitar todos os idosos abandonados ou, se preferirmos, mortos.

O jovem, na narrativa, representa uma das extremidades da ponte, o futuro do reino, que pode desabar se a outra parte da mesma ponte, a memória do reino, for destruída. O jovem recusa-se a fazer parte dos assassinos dos anciãos porque está avisado do ditado local: “os velhos são o celeiro das sementes”. Para os elucidar este ditado, Pampalk (2003, p. 31) comenta: “Os velhos são celeiros que guardam as experiências da vida e a sabedoria das gerações passadas e as transmitem às gerações seguintes. É-lhes devido respeito e atenção, pois, o seu conselho faltar ou se não forem ouvidos, o clã morreria”.

Essas experiências de vida solicitadas por um outro jovem a também um outro ancião no conto “a mulher adúltera”. “Vovô, para eu chegar à sua idade, o que eu devo fazer?”, quis saber o jovem, cujo pai tinha morrido, precisando de alguém que o fizesse crescer até chegar à velhice. Os conselhos são providenciais, decisivos e resumem-se nas linhas que se seguem: “Meu neto, para tu chegares à minha idade, quando estiveres a conversar com as pessoas apenas falas de ti, não fales de pessoas alheias. (…) Quando alguém te servir algo de comer, não podes negar”, (p.41).

Sem imaginar, este passa por maus bocados na casa do tio, irmão do pai. A tia, esposa do tio, vivia maltratando-o, sobretudo depois de a flagrar a cometer adultério:

O sobrinho, quando chegou à casa, foi directamente ao quarto. Abriu a porta e viu a tia deitada com um outro homem. Como se não tivesse visto nada, entrou no quarto, levou o dinheiro, saiu, fechou a porta e foi entregar ao tio. Como lhe tinha sido dito pelo primeiro velho, para se chegar à velhice, apenas se deve falar de si e não de outras pessoas. Portanto, ele não disse nada do que tinha visto ao tio (Kulemba, 2016, p. 41).

Mas a tia manteve-se desconfiada, tanto mais que contratou pessoas para que lhe assassinassem o sobrinho, mas graças aos ensinamentos do velho, os planos dessa tia fracassaram redondamente:

A tia, para acabar com o problema, contratou um bandido, para que lhe assassinasse o sobrinho. Tudo aconteceria no mato. O rapaz iria ao mato buscar lenha, no fim do dia. O bandido, logo que ouvisse um movimento estranho no mato, devia matar a pessoa (…) Quando estava quase a escurecer, a senhora mandou o sobrinho para ir àquela mata. Mas pelo caminho, o rapaz foi convidado para comer mandioca numa casa. Recordando-se da lição que aprendera do segundo velho, aceitou o convite. Entrou na tal casa, e esperou que a mandioca cozesse, para comer. (…) Passado algum tempo, a tia do rapaz achou por bem mandar o filho, para procurar pelo sobrinho, na mata. Estava segura de que o sobrinho já tinha sido morto pelo bandido (…) Quando o filho daquela senhora chegou à mata, o bandido, que já estava à espera de um movimento estranho, matou o miúdo. Ficou feliz por ter cumprido a sua missão, pois receberia boa quantia de dinheiro pelo trabalho feito.

O bandido se enganou na “encomenda” e o sobrinho escapou à morte. Os conselhos do velho permitiram que o jovem ficasse salvo.

De resto, como se pode depreender, no primeiro conto é o jovem que salva a velha, mas no segundo é o velho que salva o jovem, o que certamente demonstra essa cumplicidade entre a infância e a velhice nas narrativas tradicionais.

Os anciãos, que, como se disse inúmeras vezes, são a memória colectiva sempre viram nos netos a sua protecção, a sua segurança social, daí que pressionem os filhos para que procriem, celebrando o nascimento de cada criança como se fosse um acto único. Algumas vezes pedem ou exigem aos filhos que lhes entregue os netos para criar e lhes façam companhia.

No livro “Mphyanga?”, José Pampalk traz-nos um conto tradicional (uma avó dura com a sua neta) em que uma velha recebeu uma neta e passaram a viver juntas. Mas como anciã temia que a neta a abandonasse, cortava-lhe as pernas e só lhas colocava quando a quisesse mandar:

“Mas a velhota andava preocupada, temendo que um dia qualquer a jovem fugisse para a casa dos seus pais. Como, porém, estava tão determinada em manter a neta ao pé dela, cortou-lhe as pernas, levou-as e escondeu-as na sua casa numa panela grande que servia para fazer cerveja. Assim, a pequena não tinha a possibilidade de se afastar da velha”. (Pampalk, 2008, p. 298).

Esse episódio, que também parece inverosímil, a retrata a solidão a que os anciãos estão votados pelos filhos e a reivindicação que os mesmos fazem para que lhes concedam netos, estejam presos a ales para que o futuro seja garantido. É como se dessa prisão das pessoas das faixas etárias opostas nascesse a liberdade para sempre.

 

Considerações finais

A literatura oral está intimamente ligada ao retrato dos fenómenos sociais, quer condenando-os, quer corroborando-os. Deste modo, nos três contos tradicionais analisados, constatamos que, pelo facto de os anciãos serem rejeitados por muitas pessoas, as narrativas tradicionais produzidas acabam sendo influenciadas pela rejeição, algumas vezes, da figura do velho, e noutras da figura do menino, sobretudo órfãos.

A cumplicidade existente entre os anciãos e as crianças, no corpus de texto analisado, resulta da fragilidade a que estas duas camadas etárias estão expostas. Ficam vulneráveis crianças que perdem os entes queridos. De igual modo, ficam na mesma situação os idosos depois de perder a força braçal.

A partir dos três contos analisados, conseguimos compreender a evolução histórica da relação entre a velhice e a infância.

Notamos como as histórias, contadas à volta da fogueira, ajudavam a estreitar essa relação, fazendo com que a voz do ancião se tornasse inútil na ausência de um ouvido, de um neto atento que pudesse dar continuidade à obra do velho.

 

Bibliografia

FERREIRA, A. (2012) “Recordar é preciso”: considerações sobre a figura do griot e a importância de suas narrativas na formação da memória coletiva afro-brasileira. Disponível em: http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/emtese/article/view/3813, acessado em 25 de Agosto

KULEMBA, A. (2016). À volta da fogueira: vencedores do concurso de redacção-Kulemba 2016. Beira: Fundza.

NASCIMENTO, L & RAMOS, M. (2011). A memória dos velhos e a valorização da tradição na literatura africana: algumas leituras. Disponível em:

http://www.portaldeperiodicos.unisul.br/index.php/Critica_Cultural/article/download/775/pdf_28 acessado em 25 de Agosto

OLIVEIRA, C. (2011) Infância e Velhice: Memória e Literatura. Disponível em: http://www.letras.ufrj.br/neolatinas/media/publicacoes/cadernos/a5n5/litcult/cristiane_oliveira.pdf, acessado em 26 de Agosto.

PAMPALK, J. (2003). Nzerumbawiri: provérbios sena. Maputo: Paulinas.

PAMPALK, J. (2008). Mphyanga: contos sena. Maputo: Paulinas.

 ROSA, L. (2014). Contos africanos e nganos: identidade moçambicana. Disponível em: http://revistas.fw.uri.br/index.php/literaturaemdebate/article/download/1076/1700 acessado em 23 de Agosto.

    

    

Por Danito Avelino

PERPECTIVA INTERDISCIPLINAR!

A partir da obra “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”, da autoria de Mia Couto, procuramos, neste trabalho, encontrar exemplos do uso do texto literário como fonte para um estudo antropológico.

Este ensaio foi produzido no âmbito do estudo da cadeira da Teoria da Literatura, leccionada no curso de Doutoramento em Língua, Cultura e Sociedade, na Universidade Zambeze.

A obra “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra” foi publicada em Moçambique em 2003 e no Brasil em 2011. Nesta obra, Mia Couto fala basicamente das nuances de um rito fúnebre, o qual deve ser seguido para a sepultura do patriarca de Luar-do-Chão, Dito Mariano.

Tomando em consideração os exemplos de manifestações culturais vividas intensamente pelos personagens da narrativa mostra-se como os textos literários podem ser considerados fontes privilegiadas para a Antropologia Cultural.

UMA LEITURA DOS GÉNEROS LITERÁRIOS

Inúmeros autores, como Stalloni (2010) e Pereira (2006), têm repetido que muitas são as tentativas de definir a literatura ao longo da história, alimentando apaixonados debates sobre esta arte. Eagleton (2006: 13) define-a como a escrita "imaginativa'', no sentido de ficção - escrita esta que não é literalmente verídica. 

No mesmo diapasão, naturalmente esquivando de dar um conceito claro e objectivo sobre o texto literário, Pereira (2010:80) refere que a obra literária tem como “referência um mundo ficcional, inventivo, imaginativo”. Para tanto, o mesmo autor acha que é apenas a ficcionalidade o critério válido para a distinção entre o que é e que não é texto literário. “A verdade da Literatura não se confunde com a verdade que pode ser metodicamente verificada”, (ibidem).

As obras literárias, para melhor estudo, são agrupadas em géneros[1]. Stalloni divide-os em três géneros, nomeadamente, teatro, poesia e narrativa. É dentro deste último que encontramos o conto, a novela e o romance.

É sobre o romance que se cingirá o nosso estudo. Mas, antes vale a pena trazer à colação as características do texto narrativo no geral, na óptica de Stalloni. Ora vejamos:

Um sentido: nas entrelinhas dos factos narrados está oculta a intenção do autor, a de dar a compreender e a interpretar; uma forma: os acontecimentos são narrados através de um código, uma linguagem escrita; e uma história: o assunto a descrito no texto.

É basicamente sobre o conteúdo, história ou o assunto a ser descrito ou reconstituído que nos ocuparemos nas linhas que se seguem. Procuraremos no romance “um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, da autoria de Mia Couto, encontrar marcas ou motivos para um estudo antropológico.

Para sermos mais precisos, comecemos por definir a Antropologia. Esta ciência estuda o homem no seu todo. Ou melhor, o homem e as suas experiências, o que lhe confere, de acordo com Marconi & Presotto (2010:24) “um tríplice aspecto”:

  1. a) Ciência Social: procura compreender o homem enquanto elemento integrante dos grupos organizados;
  2. b) Ciência humana: centra-se no estudo do homem como um todo, procurando descrever a sua história, as suas crenças, os seus usos e costumes, filosofia, linguagem, etc.
  3. c) Ciência Natural: interessa-se tanto pelo conhecimento psicossomático do homem bem como a sua evolução.

As experiências humanas, nomeadamente, os conhecimentos, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades podem ser agrupadas num complexo unitário que Edward Taylor, na sua obra Cultura Primitiva chamou de cultura.

A Antropologia Cultural é o campo da Antropologia que se ocupa de aspectos culturais do homem, do passado e do presente. Para estudar as culturas extintas, sem registo escrito, a Antropologia socorre-se da Arqueologia. Enquanto em sociedades não ágrafas pode-se recorrer a textos, dentre eles literários, para o estudo cultural destes povos.

Muitos são os autores, cujas obras são usadas para estudos históricos, geográficos, sociológicos ou antropológicos. Com a obra Ilíada, da autoria de Homero, temos o conhecimento dos episódios sucedidos no período de 50 dias durante o décimo e último ano da Guerra de Tróia. Mais informações temos, da mesma guerra, na obra Odisseia, também atribuída a Homero. A obra “Olho de Hertzog”, de João Paulo Borges Coelho, dá-nos a conhecer o desenrolar da Primeira Grande Mundial no norte de Moçambique. Adelino Timóteo, a partir dos relatos de David Livingstone, fala-nos do poder das Donas do Zambeze em “Os oitos maridos da Dona Luísa Michaela da Cruz”.

Para nos falar das tradições do povo de Luar-do-Chão, ilha situada algures em Moçambique, temos Mia Couto, na sua obra “um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”.

Resumo da obra “um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”.

Depois da morte do avô Dito Mariano, Marianinho, por ser o neto favorito, é obrigado a abandonar a residência universitária e a regressar a ilha de Luar-do-Chão para dirigir as cerimónias fúnebres. Ao chegar à vila, Marianinho percebe de imediato que a morte do avô permanece estranha e incompleta, escondendo vontades que escapam à força dos homens. Mas clinicamente morto, o avô vai revelando, em cartas, procedimentos a Marianinho para lidar com aquela morte até ao dia da descida à tumba e queda da chuva.

 

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O aspecto antropológico em destaque neste texto de Mia Couto é processo ritualístico, evidenciado pela constante presença de ritos e factos do domínio do simbólico. E ao dissecarmos esses dois aspectos estaríamos certamente a compreender a cultura dos homens de Luar-do-Chão, espaço em que ocorre a narrativa. Aliás, CASSIRER (1960:55) confirma que “ o símbolo é uma chave para a compreensão da cultura dos homens”.

Para MARTINEZ (2007:158), “símbolo é a metade de um objecto, sinal de reconhecimento que representa um laço de hospitalidade”. Ou ainda, uma insígnia, aquilo que é convencional.

Na obra em estudo, Marianinho, neto do protagonista (Dito Mariano) é por este escolhido para dirigir as cerimónias fúnebres do avô. Marianinho recebe a notícia, conforme manda a tradição, pela boca do tio Abstinêncio, o primogénito do velho Mariano.

“Abstinêncio é o mais velho dos tios. Daí a incumbência: ele é que tem que anunciar a morte do seu pai, Dito Mariano”, (COUTO, 2011:15-16). A partir deste trecho, fica claro, quem no sistema parentesco, toma dianteira na realização de um rito de passagem, da morte concretamente. E também sob que condições: Marianinho não deve chorar e deve estar limpo, ou melhor, circuncidado.

― Falo tudo isso, não é por causa de nada. É para saber se você pode ou não ir ao funeral”, diz a personagem Dulcineusa, numa conversa com o neto Marianinho, sobre a possibilidade de este ir ou não ao funeral do avô.

Diante dos factos, tristonhos, diga-se de passagem, pela tradição está proibido de chorar. “ A vontade é de chorar. Mas não tenho idade nem ombro onde escoar tristezas” (COUTO 2011:18).

O protagonista Dito Mariano, enquanto espera, inerte, pelo enterro do seu corpo, as pessoas removem o telhado da sua casa, conforme manda a tradição, para a limpeza das conspurcações que o luto acarreta. “Mesmo ao longe, já se nota que tinham mandado tirar o telhado da sala. É assim, em caso de morte. O luto ordena que o seu se adentre nos compartimentos, para limpeza das cósmicas sujidades. A casa é um corpo ― o tecto que separa a cabeça dos altaneiros céus (COUTO, 2011:29).

É interessante notar, no trecho acima, que se espera pela bondade dos astros para se corrigir os estragos causados pelos homens. Presente está uma relação intrínseca entre o homem e o ambiente (outro aspecto estudado pela Antropologia), o que nos traz à memória um poema do povo sena, recolhido por MUALA & TKACZ (2015:29):

“O espírito da árvore é a sombra.

O espírito da erva é o orvalho.

Tudo é útil.

Tudo fala”.

Este poema é dum povo que habita a região de Gorongosa, no centro de Moçambique. Mas em Luar-do-Chão, provavelmente situado no sul do país,// há casos idênticos, o que nos tenta a fazer generalizações, embora movediças e perigosas em Antropologia.

“Todos os dias a Avó regava a casa como se faz a uma planta. Tudo requer ser aguado, dizia ela. A casa, a estrada, a árvore. E até o rio deve ser regado”, (COUTO, 2011:31). Antes desta frase, temos uma outra, que, por coincidência, é à água que cabe o papel de restaurador, ou como prefere chamar COUTO de mandador

O Tio me puxa para trás, quase violento. Ajoelha-se na areia e, com a mão esquerda, desenha um círculo no chão. Junto margem, o rabisco divide os mundos ― de um lado, a família; do outro, nós, os chegados. Ficam todos assim, parados à espera. Até que a onda desfaz o desenho na areia. Olhando a berma do rio, o Tio Abstinêncio profere:

O Homem trança, o rio destrança.” (COUTO, 2011:26).

As crenças são um outro assunto aflorado no romance “O rio chamado tempo, uma casa chamada terra”. Um conjunto de práticas ― como as de um morto mal morrido e a mãe de um nado morto impedem a queda da chuva ― previstas no conceito de crença apresentado por Marconi & Presotto.

Crença ou fé. Consiste em sentimento de respeito, de submissão, reverência, confiança, e até de medo em relação ao sobrenatural, ao desconhecido. Não supõe compreensão. Pode-se dizer que é o desejo de aceitar qualquer coisa, provocada por algo misterioso, mas sem demonstração ou prova tangível. (Marconi & Presotto, 2010:153).

A personagem Mariavilhosa, mãe de Marianinho, é vítima da crença dos seus ao ter um nado morto. Elucidativa é a humilhação com que ela teve de lutar. “A vida de Mariavilhosa se tinha infernizado desde que lhe sucedera o nado-morto. Passara a ser uma mulher condenada, portadora de má sorte e vigiada pelos outros para espelhar sua sina pela vila” (COUTO, 2011:231).

O último aspecto antropológico que nos interessa destacar na obra de COUTO é sincretismo religioso, concretamente entre as religiões africanas e o cristianismo. Os crentes apresentam-se, à luz do dia, como praticantes do cristianismo, mas, à calada da noite, realizam cerimónias mágico-religiosas africanas. Até sacerdotes cristãos se guiam por este ritual. Como foi o caso do padre Nunes que, acossado por um mal-estar, foi pedir auxílio a um feiticeiro [curandeiro?].

“O adivinho, intrigado, levantou os olhos. O padre insistiu, encorajado: ele que atirasse os búzios que ele queria saber do seu destino, agora que os anjos o tinham deixado tombar, sem amparo, no vazio da incerteza” (COUTO, 2011:100).

Considerações finais 

O texto literário continua a ser uma privilegiada forma para as pessoas deixarem registadas as relações que o ser humano tem com os seus semelhantes, com o meio ambiente e com a cultura, aspectos estudados pela ciência antropológica.

O escritor Mia Couto, nos seus romances, tem privilegiado estórias da “terra”, carregadas de crenças, tradições, conhecimentos, usos e costumes. Daí ter sido interessante estudar a obra “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra.

A obra em apreço aborda muitos assuntos ligados aos ritos de passagem, de protecção e de aflição. No enredo, o facto de se exigir a Marianinho a realização de circuncisão para que possa participar no funeral é o exemplo bem elucidativo.

A partir do que verificamos na obra de Mia Couto, podemos concluir que os textos literários devem continuar a ser usados como fontes para estudo antropológico, sobretudo para sociedades cuja história ainda está por registar.   

Bibliografia

CASSIRER, Ernest (1960). Ensaio sobre o homem. Lisboa: Guimarães.

COUTO, Mia (2011). Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. São Paulo: Companhia das Letras.

EAGLETON, Terry. (2006). Teoria da Literatura: uma introdução. São Paulo: Martins Fonte.

MARCONI, Marina de Andrade & PRESOTTO, Zélia Maria Neves (2010). Antropologia: uma introdução, 7ª edição. São Paulo: Editora Atlas.

MARTINEZ, Francisco de Lerma (2007). Antropologia Cultural, 5ª edição. Maputo: Paulinas.

MUALA, Domingos & TKACZ, Virlana (2015). Contos da Gorongosa. Lisboa: Humus.

PEREIRA, Júlio César França (2010). Teoria da literatura: anatomia de um conceito através da leitura de seus grandes manuais. Disponível em http://livros01.livrosgratis.com.br/cp100329.pdf, acessado em 25 de Novembro.

STALLONI, Yves (2010). Os géneros literários. Mem Martins: Publicações Europa-América.

 

[1] Para Stalloni, a literatura e a arte é que recorreram ao uso deste termo para classificar classes, temas ou modos de criação.

Já estou de volta à "pátria amada" e durante os escassos dois dias (15 e 16), parece que não, aprendi uma série de coisas, lições aos montes.

Aprendi, primeiro, que Maputo não chega aos pés da Beira. O vício do comercial e do negócio destrói sonhos antes mesmo de começarem a ser concretizados. Existe lá a associação que me convidou para partilhar o trabalho da Kuvaninga - a Kulemba - sem empresas, sem marcas e sem pomposidades reuniu perto de 300 crianças e as fez esquecer, literalmente, o Idai com brincadeiras do seu tempo, brincadeiras que não envolvem pula-pulas mas as fizeram pular até ultrapassar as alturas.

Aprendi também que ser jovem universitário não é investir em megas para exibir suas frescas matérias, muitas vezes não consolidadas, nem desacreditar no outro ou promover inveja nas redes sociais. Vi jovens dedicados ao voluntariado mais do que os próprios empregados. Engajados. Não pelo subsídio ou outra herança, mas imbuídos de vontade de fazer as coisas acontecerem - esta é a equipa da Kulemba.

Aprendi ainda que a Universidade, o contrário do que aqui se pensa, é um espaço plural e, também, merecidamente para crianças. Vocês não percebem o que é uma criança entrar num anfiteatro e usar do palco com um à-vontade merecido, circular pelo pátio como se estivesse num jardim e reconhecer as faculdades como se de escolas primárias se tratasse. É que esta experiência já lhe projecta para o futuro, onde se sente familiarizado com o ensino superior, pelo menos no que respeita às infra-estruturas.

Aprendi que fazer um evento para crianças de dois dias é fácil. Só com o livro como o grande pretexto, é possível. Sem cantor de pompa e sem vulgarizar a infantilidade. O evento decorreu sábado e domingo. Assumi que sábado fosse um dia ideal. As crianças têm razão de vir, consenti. Ora, no domingo a presença foi na mesma dimensão e com o mesmo ar de aprendizagem.

Mais do que isso, em quatro oficinas de pintura de capas artesanais, aprendi que as crianças são, no fundo, muito mais inteligentes que os adultos. E que Beira não está alheia no que concerne à boa educação para os nossos petizes. Fui lá para aprender, e de facto saí saciado. Tanta criança linda e espectacular conheci que vontade não me faltou de não mais regressar.

Em nome da Kuvaninga, muito agradeço a Kulemba AL e Dany Wambire pelo convite e pela hospitalidade. Sem ter estado aí continuaria a pensar que os eventos infantis são esses que testemunhamos (aqui) a 1 de Junho.

Espero que a nossa passagem pela 3ª edição do FLIK tenha valido a pena e tenha ajudado a desconstruir ambiguidades, a projectar novos leitores e a incentivar novos escritores.

Elcídio Bila
Kuvaninga cartão d'arte

Soletras Esse Verso é uma antologia de poemas dos antigos colaboradores da Revista Soletras, organizada por Gustavo Sabamba. São, no todo, 50 poemas, e 10 autores, alguns já conhecidos na esfera literária, outros nem tanto, mas todos novos para mim, como Martins Mapera, Obedes Lobadias, Lourenço Paulo (pseudónimo de Arlindo António Chiuiane Nhantumbo), Hera de Jesus (pseudónimo de Iyolanda de Jesus), Hirondina Joshua, Melita Matsinhe, Octaviano Joba, Omar Va Elabo (pseudónimo de Reginaldo Mussa), Sobrevivente Filho da Velhice (pseudónimo de Pedro Alfredo Ferro) e Adriano Júnior. Cada escritor marca a sua presença com 5 poemas. É o resultado dum trabalho que tem sido levado a cabo pela revista supracitada.

Soletras Esse Verso tem a sua marca identitária jovens poetas, não só jovens no sentido da idade mas também no sentido de que eles são novos no mundo lírico, com a excepção de alguns.

Ao se falar da poesia em Moçambique, muitas vezes, recorre-se ao passado invocando-se os grandes e célebres poetas intemporais. Fala-se pouco da  poesia jovem, essa escrita não pelos poetas e poetisas canonizados. Os poetas (e poetisas) soletrados nesta antologia reclamam pelo seu lugar ao sol, mostrando que são dignos de igual apreço que se presta aos poetas da outrora.

É-me dificil particularizar o estilo de cada poeta aqui ou mesmo falar da exalada beleza dos seus escritos. E nessa minha atitude de cobardia, refujio-me em generalizar a obra como um todo. Mas que isso também não é lá uma tarefa fácil. Enfim, Soletras Esse Verso tem mais méritos que deméritos. Poemas confeccionados com amor pelos delfins dos percursadores do lirismo nacional. É impossível não emocionar-se com o amor que Mapera nutre pela poesia, “A poesia é uma alavanca / funciona como picareta / perfura a mente da terra / como a enxada cava o leito do rio / e arranca do subsolo as águas / que regam a garganta faminta / que cantam no altar de vida (..)” (p. 9); chocar-se com dicotomia vida e morte em Lobadias; apaixonar-se pelas odes de Paulo; excitar-se com a lascividade da Hera, “Despe-me / Folheia as páginas de mim / Descónstroi cada palavra contida em cada curva sinuosa do meu corpo / Faz de mim o teu oficio (...)” (p. 33); importunar-se com o existencialismo em Hirondina; admirar a musicalidade na lirica da Melita e o amor do Octaviano pela vida; chatear-se com a petulância de Omar; e fascinar-se com a imaginação do Filho da Velhice e do Júnior, “(...) Já penetrei mundos violando lei de fronteira / Sem vistos visitei a diáspora /  Encantei-me por um povo (uma cultura) / E o vizinho rendeu-se à aventura / Pois, nunca me vira sair desta terra / Quando o livro aberto me leva à última aventura” (p. 67).

No entanto, a perfeição mora longe desta obra, soletrar alguns versos simplesmente não cativa tanto assim. Há um sentimento de "poderiam ter feito mais", pois faltam-lhes algo mais e com mais vivacidade. Não é, contudo, a perfeição que se procura numa obra dessa, é a excelência, e isso ela tem de sobra. Ora vejamos:

Diz que vai embora / e que não mais voltará / ao mesmo tempo / quer que para sempre / eu seja feliz. / (...) Diz também / que vou encontrar / mulher melhor / (...)Mas melhor? / como? / Se diz que não mais a devo procurar. / Ainda insiste / que devo cuidar da minha vida. / Mas qual vida? / esta que com a tua ida / ma pretende tirar? (...) Cuida de mim!

(Obedes Lobadias, pp. 19 - 20)

Manuel Gimo

A Editorial Fundza é uma editora moçambicana que procura dar oportunidade e visibilidade aos novos escritores moçambicanos, agenciando-os para que se tornem escritores de sucesso.

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