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Soletras Esse Verso – Uma Peregrinação de Gustavo Sabamba pela Poesia Jovem Moçambicana

Soletras Esse Verso é uma antologia de poemas dos antigos colaboradores da Revista Soletras, organizada por Gustavo Sabamba. São, no todo, 50 poemas, e 10 autores, alguns já conhecidos na esfera literária, outros nem tanto, mas todos novos para mim, como Martins Mapera, Obedes Lobadias, Lourenço Paulo (pseudónimo de Arlindo António Chiuiane Nhantumbo), Hera de Jesus (pseudónimo de Iyolanda de Jesus), Hirondina Joshua, Melita Matsinhe, Octaviano Joba, Omar Va Elabo (pseudónimo de Reginaldo Mussa), Sobrevivente Filho da Velhice (pseudónimo de Pedro Alfredo Ferro) e Adriano Júnior. Cada escritor marca a sua presença com 5 poemas. É o resultado dum trabalho que tem sido levado a cabo pela revista supracitada.

Soletras Esse Verso tem a sua marca identitária jovens poetas, não só jovens no sentido da idade mas também no sentido de que eles são novos no mundo lírico, com a excepção de alguns.

Ao se falar da poesia em Moçambique, muitas vezes, recorre-se ao passado invocando-se os grandes e célebres poetas intemporais. Fala-se pouco da  poesia jovem, essa escrita não pelos poetas e poetisas canonizados. Os poetas (e poetisas) soletrados nesta antologia reclamam pelo seu lugar ao sol, mostrando que são dignos de igual apreço que se presta aos poetas da outrora.

É-me dificil particularizar o estilo de cada poeta aqui ou mesmo falar da exalada beleza dos seus escritos. E nessa minha atitude de cobardia, refujio-me em generalizar a obra como um todo. Mas que isso também não é lá uma tarefa fácil. Enfim, Soletras Esse Verso tem mais méritos que deméritos. Poemas confeccionados com amor pelos delfins dos percursadores do lirismo nacional. É impossível não emocionar-se com o amor que Mapera nutre pela poesia, “A poesia é uma alavanca / funciona como picareta / perfura a mente da terra / como a enxada cava o leito do rio / e arranca do subsolo as águas / que regam a garganta faminta / que cantam no altar de vida (..)” (p. 9); chocar-se com dicotomia vida e morte em Lobadias; apaixonar-se pelas odes de Paulo; excitar-se com a lascividade da Hera, “Despe-me / Folheia as páginas de mim / Descónstroi cada palavra contida em cada curva sinuosa do meu corpo / Faz de mim o teu oficio (...)” (p. 33); importunar-se com o existencialismo em Hirondina; admirar a musicalidade na lirica da Melita e o amor do Octaviano pela vida; chatear-se com a petulância de Omar; e fascinar-se com a imaginação do Filho da Velhice e do Júnior, “(...) Já penetrei mundos violando lei de fronteira / Sem vistos visitei a diáspora /  Encantei-me por um povo (uma cultura) / E o vizinho rendeu-se à aventura / Pois, nunca me vira sair desta terra / Quando o livro aberto me leva à última aventura” (p. 67).

No entanto, a perfeição mora longe desta obra, soletrar alguns versos simplesmente não cativa tanto assim. Há um sentimento de "poderiam ter feito mais", pois faltam-lhes algo mais e com mais vivacidade. Não é, contudo, a perfeição que se procura numa obra dessa, é a excelência, e isso ela tem de sobra. Ora vejamos:

Diz que vai embora / e que não mais voltará / ao mesmo tempo / quer que para sempre / eu seja feliz. / (...) Diz também / que vou encontrar / mulher melhor / (...)Mas melhor? / como? / Se diz que não mais a devo procurar. / Ainda insiste / que devo cuidar da minha vida. / Mas qual vida? / esta que com a tua ida / ma pretende tirar? (...) Cuida de mim!

(Obedes Lobadias, pp. 19 - 20)

Manuel Gimo

A Editorial Fundza é uma editora moçambicana que procura dar oportunidade e visibilidade aos novos escritores moçambicanos, agenciando-os para que se tornem escritores de sucesso.

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