Blog

O texto literário como fonte de estudo antropológico

Por Danito Avelino

PERPECTIVA INTERDISCIPLINAR!

A partir da obra “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”, da autoria de Mia Couto, procuramos, neste trabalho, encontrar exemplos do uso do texto literário como fonte para um estudo antropológico.

Este ensaio foi produzido no âmbito do estudo da cadeira da Teoria da Literatura, leccionada no curso de Doutoramento em Língua, Cultura e Sociedade, na Universidade Zambeze.

A obra “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra” foi publicada em Moçambique em 2003 e no Brasil em 2011. Nesta obra, Mia Couto fala basicamente das nuances de um rito fúnebre, o qual deve ser seguido para a sepultura do patriarca de Luar-do-Chão, Dito Mariano.

Tomando em consideração os exemplos de manifestações culturais vividas intensamente pelos personagens da narrativa mostra-se como os textos literários podem ser considerados fontes privilegiadas para a Antropologia Cultural.

UMA LEITURA DOS GÉNEROS LITERÁRIOS

Inúmeros autores, como Stalloni (2010) e Pereira (2006), têm repetido que muitas são as tentativas de definir a literatura ao longo da história, alimentando apaixonados debates sobre esta arte. Eagleton (2006: 13) define-a como a escrita "imaginativa'', no sentido de ficção - escrita esta que não é literalmente verídica. 

No mesmo diapasão, naturalmente esquivando de dar um conceito claro e objectivo sobre o texto literário, Pereira (2010:80) refere que a obra literária tem como “referência um mundo ficcional, inventivo, imaginativo”. Para tanto, o mesmo autor acha que é apenas a ficcionalidade o critério válido para a distinção entre o que é e que não é texto literário. “A verdade da Literatura não se confunde com a verdade que pode ser metodicamente verificada”, (ibidem).

As obras literárias, para melhor estudo, são agrupadas em géneros[1]. Stalloni divide-os em três géneros, nomeadamente, teatro, poesia e narrativa. É dentro deste último que encontramos o conto, a novela e o romance.

É sobre o romance que se cingirá o nosso estudo. Mas, antes vale a pena trazer à colação as características do texto narrativo no geral, na óptica de Stalloni. Ora vejamos:

Um sentido: nas entrelinhas dos factos narrados está oculta a intenção do autor, a de dar a compreender e a interpretar; uma forma: os acontecimentos são narrados através de um código, uma linguagem escrita; e uma história: o assunto a descrito no texto.

É basicamente sobre o conteúdo, história ou o assunto a ser descrito ou reconstituído que nos ocuparemos nas linhas que se seguem. Procuraremos no romance “um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, da autoria de Mia Couto, encontrar marcas ou motivos para um estudo antropológico.

Para sermos mais precisos, comecemos por definir a Antropologia. Esta ciência estuda o homem no seu todo. Ou melhor, o homem e as suas experiências, o que lhe confere, de acordo com Marconi & Presotto (2010:24) “um tríplice aspecto”:

  1. a) Ciência Social: procura compreender o homem enquanto elemento integrante dos grupos organizados;
  2. b) Ciência humana: centra-se no estudo do homem como um todo, procurando descrever a sua história, as suas crenças, os seus usos e costumes, filosofia, linguagem, etc.
  3. c) Ciência Natural: interessa-se tanto pelo conhecimento psicossomático do homem bem como a sua evolução.

As experiências humanas, nomeadamente, os conhecimentos, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades podem ser agrupadas num complexo unitário que Edward Taylor, na sua obra Cultura Primitiva chamou de cultura.

A Antropologia Cultural é o campo da Antropologia que se ocupa de aspectos culturais do homem, do passado e do presente. Para estudar as culturas extintas, sem registo escrito, a Antropologia socorre-se da Arqueologia. Enquanto em sociedades não ágrafas pode-se recorrer a textos, dentre eles literários, para o estudo cultural destes povos.

Muitos são os autores, cujas obras são usadas para estudos históricos, geográficos, sociológicos ou antropológicos. Com a obra Ilíada, da autoria de Homero, temos o conhecimento dos episódios sucedidos no período de 50 dias durante o décimo e último ano da Guerra de Tróia. Mais informações temos, da mesma guerra, na obra Odisseia, também atribuída a Homero. A obra “Olho de Hertzog”, de João Paulo Borges Coelho, dá-nos a conhecer o desenrolar da Primeira Grande Mundial no norte de Moçambique. Adelino Timóteo, a partir dos relatos de David Livingstone, fala-nos do poder das Donas do Zambeze em “Os oitos maridos da Dona Luísa Michaela da Cruz”.

Para nos falar das tradições do povo de Luar-do-Chão, ilha situada algures em Moçambique, temos Mia Couto, na sua obra “um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”.

Resumo da obra “um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”.

Depois da morte do avô Dito Mariano, Marianinho, por ser o neto favorito, é obrigado a abandonar a residência universitária e a regressar a ilha de Luar-do-Chão para dirigir as cerimónias fúnebres. Ao chegar à vila, Marianinho percebe de imediato que a morte do avô permanece estranha e incompleta, escondendo vontades que escapam à força dos homens. Mas clinicamente morto, o avô vai revelando, em cartas, procedimentos a Marianinho para lidar com aquela morte até ao dia da descida à tumba e queda da chuva.

 

xxxxxx

O aspecto antropológico em destaque neste texto de Mia Couto é processo ritualístico, evidenciado pela constante presença de ritos e factos do domínio do simbólico. E ao dissecarmos esses dois aspectos estaríamos certamente a compreender a cultura dos homens de Luar-do-Chão, espaço em que ocorre a narrativa. Aliás, CASSIRER (1960:55) confirma que “ o símbolo é uma chave para a compreensão da cultura dos homens”.

Para MARTINEZ (2007:158), “símbolo é a metade de um objecto, sinal de reconhecimento que representa um laço de hospitalidade”. Ou ainda, uma insígnia, aquilo que é convencional.

Na obra em estudo, Marianinho, neto do protagonista (Dito Mariano) é por este escolhido para dirigir as cerimónias fúnebres do avô. Marianinho recebe a notícia, conforme manda a tradição, pela boca do tio Abstinêncio, o primogénito do velho Mariano.

“Abstinêncio é o mais velho dos tios. Daí a incumbência: ele é que tem que anunciar a morte do seu pai, Dito Mariano”, (COUTO, 2011:15-16). A partir deste trecho, fica claro, quem no sistema parentesco, toma dianteira na realização de um rito de passagem, da morte concretamente. E também sob que condições: Marianinho não deve chorar e deve estar limpo, ou melhor, circuncidado.

― Falo tudo isso, não é por causa de nada. É para saber se você pode ou não ir ao funeral”, diz a personagem Dulcineusa, numa conversa com o neto Marianinho, sobre a possibilidade de este ir ou não ao funeral do avô.

Diante dos factos, tristonhos, diga-se de passagem, pela tradição está proibido de chorar. “ A vontade é de chorar. Mas não tenho idade nem ombro onde escoar tristezas” (COUTO 2011:18).

O protagonista Dito Mariano, enquanto espera, inerte, pelo enterro do seu corpo, as pessoas removem o telhado da sua casa, conforme manda a tradição, para a limpeza das conspurcações que o luto acarreta. “Mesmo ao longe, já se nota que tinham mandado tirar o telhado da sala. É assim, em caso de morte. O luto ordena que o seu se adentre nos compartimentos, para limpeza das cósmicas sujidades. A casa é um corpo ― o tecto que separa a cabeça dos altaneiros céus (COUTO, 2011:29).

É interessante notar, no trecho acima, que se espera pela bondade dos astros para se corrigir os estragos causados pelos homens. Presente está uma relação intrínseca entre o homem e o ambiente (outro aspecto estudado pela Antropologia), o que nos traz à memória um poema do povo sena, recolhido por MUALA & TKACZ (2015:29):

“O espírito da árvore é a sombra.

O espírito da erva é o orvalho.

Tudo é útil.

Tudo fala”.

Este poema é dum povo que habita a região de Gorongosa, no centro de Moçambique. Mas em Luar-do-Chão, provavelmente situado no sul do país,// há casos idênticos, o que nos tenta a fazer generalizações, embora movediças e perigosas em Antropologia.

“Todos os dias a Avó regava a casa como se faz a uma planta. Tudo requer ser aguado, dizia ela. A casa, a estrada, a árvore. E até o rio deve ser regado”, (COUTO, 2011:31). Antes desta frase, temos uma outra, que, por coincidência, é à água que cabe o papel de restaurador, ou como prefere chamar COUTO de mandador

O Tio me puxa para trás, quase violento. Ajoelha-se na areia e, com a mão esquerda, desenha um círculo no chão. Junto margem, o rabisco divide os mundos ― de um lado, a família; do outro, nós, os chegados. Ficam todos assim, parados à espera. Até que a onda desfaz o desenho na areia. Olhando a berma do rio, o Tio Abstinêncio profere:

O Homem trança, o rio destrança.” (COUTO, 2011:26).

As crenças são um outro assunto aflorado no romance “O rio chamado tempo, uma casa chamada terra”. Um conjunto de práticas ― como as de um morto mal morrido e a mãe de um nado morto impedem a queda da chuva ― previstas no conceito de crença apresentado por Marconi & Presotto.

Crença ou fé. Consiste em sentimento de respeito, de submissão, reverência, confiança, e até de medo em relação ao sobrenatural, ao desconhecido. Não supõe compreensão. Pode-se dizer que é o desejo de aceitar qualquer coisa, provocada por algo misterioso, mas sem demonstração ou prova tangível. (Marconi & Presotto, 2010:153).

A personagem Mariavilhosa, mãe de Marianinho, é vítima da crença dos seus ao ter um nado morto. Elucidativa é a humilhação com que ela teve de lutar. “A vida de Mariavilhosa se tinha infernizado desde que lhe sucedera o nado-morto. Passara a ser uma mulher condenada, portadora de má sorte e vigiada pelos outros para espelhar sua sina pela vila” (COUTO, 2011:231).

O último aspecto antropológico que nos interessa destacar na obra de COUTO é sincretismo religioso, concretamente entre as religiões africanas e o cristianismo. Os crentes apresentam-se, à luz do dia, como praticantes do cristianismo, mas, à calada da noite, realizam cerimónias mágico-religiosas africanas. Até sacerdotes cristãos se guiam por este ritual. Como foi o caso do padre Nunes que, acossado por um mal-estar, foi pedir auxílio a um feiticeiro [curandeiro?].

“O adivinho, intrigado, levantou os olhos. O padre insistiu, encorajado: ele que atirasse os búzios que ele queria saber do seu destino, agora que os anjos o tinham deixado tombar, sem amparo, no vazio da incerteza” (COUTO, 2011:100).

Considerações finais 

O texto literário continua a ser uma privilegiada forma para as pessoas deixarem registadas as relações que o ser humano tem com os seus semelhantes, com o meio ambiente e com a cultura, aspectos estudados pela ciência antropológica.

O escritor Mia Couto, nos seus romances, tem privilegiado estórias da “terra”, carregadas de crenças, tradições, conhecimentos, usos e costumes. Daí ter sido interessante estudar a obra “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra.

A obra em apreço aborda muitos assuntos ligados aos ritos de passagem, de protecção e de aflição. No enredo, o facto de se exigir a Marianinho a realização de circuncisão para que possa participar no funeral é o exemplo bem elucidativo.

A partir do que verificamos na obra de Mia Couto, podemos concluir que os textos literários devem continuar a ser usados como fontes para estudo antropológico, sobretudo para sociedades cuja história ainda está por registar.   

Bibliografia

CASSIRER, Ernest (1960). Ensaio sobre o homem. Lisboa: Guimarães.

COUTO, Mia (2011). Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. São Paulo: Companhia das Letras.

EAGLETON, Terry. (2006). Teoria da Literatura: uma introdução. São Paulo: Martins Fonte.

MARCONI, Marina de Andrade & PRESOTTO, Zélia Maria Neves (2010). Antropologia: uma introdução, 7ª edição. São Paulo: Editora Atlas.

MARTINEZ, Francisco de Lerma (2007). Antropologia Cultural, 5ª edição. Maputo: Paulinas.

MUALA, Domingos & TKACZ, Virlana (2015). Contos da Gorongosa. Lisboa: Humus.

PEREIRA, Júlio César França (2010). Teoria da literatura: anatomia de um conceito através da leitura de seus grandes manuais. Disponível em http://livros01.livrosgratis.com.br/cp100329.pdf, acessado em 25 de Novembro.

STALLONI, Yves (2010). Os géneros literários. Mem Martins: Publicações Europa-América.

 

[1] Para Stalloni, a literatura e a arte é que recorreram ao uso deste termo para classificar classes, temas ou modos de criação.

A Editorial Fundza é uma editora moçambicana que procura dar oportunidade e visibilidade aos novos escritores moçambicanos, agenciando-os para que se tornem escritores de sucesso.

Facebook

Newsletter

Subscreva a newsletter e receba novidades acerca das nossas publicações.