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A cumplicidade entre a velhice e a infância nos contos tradicionais moçambicanos

Por Danito Avelino

Resumo

Partindo de três corpus, nomeadamente, “o rei e os velhos”, “A mulher adúltera” e “Uma avó dura com a sua neta”, sendo todos contos moçambicanos, extraídos da tradição sena, povo este que se distribui pelas províncias de Sofala, Tete e Zambézia, procuraremos nos textos seleccionados identificar e analisar as marcas da relação entre idosos e crianças, ou seja, da cumplicidade existente entre a velhice e infância, cujos integrantes têm sido relegados para o segundo plano por razões várias.

Temática da idade nos contos tradicionais

A relação entre indivíduos das duas faixas etárias opostas, nas sociedades tradicionais africanas, remonta a um passado longínquo. Na clássica divisão de trabalho baseada no sexo e na idade, as pessoas mais frágeis fisicamente, nomeadamente, os anciãos ficavam com as tarefas menos duras. Não iam caçar animais na floresta nem sachar o solo para plantar, ficavam em casa a cuidar dos netos enquanto os pais destes se dedicavam ao trabalho braçal.

 Provavelmente, deste modo, nasce a cumplicidade entre os anciãos e os netos. Nesse encontro, os anciãos passam a ser os principais agentes educadores, entretendo os petizes com histórias moralistas. Estas histórias, contadas à volta da fogueira, mais do que entreter os mais novos eram uma das principais instituições que garantia reprodução social. Não havendo uma escola formal, os contos, as lendas, os provérbios e os mitos cumpriam a função de reprodução social. Os membros dessas sociedades materializam essa reprodução através dos ritos de passagem.

Como é óbvio, faziam parte dos ritos de iniciação, praticados em grande parte das sociedades moçambicanas, crianças em preparação para a fase adulta. Dirigem esses ritos, os anciãos, por serem considerados, na dimensão simbólica, sábios e virtuosos. Chevalier e Gheerbrant, citados por Oliveira (2011), referem que as sociedades vêem uma ligação entre a velhice e a sabedoria e a virtude, por seu longo acúmulo de experiência e reflexão.

O prestígio de que gozavam os anciãos foi caindo para a degenerescência quando a forma comunitária de viver foi-se perdendo, triunfando o individualismo. “Com o advento da sociedade burguesa, essa concepção de senescência foi perdendo o ar de sacralidade e transformando-se no desprestígio social que se associa a essa faixa etária actualmente” (OLIVEIRA, 2011, p. 1), incorrendo-se, deste modo, no risco de não haver pessoas que possam cumprir essa função de memória, que também social pela sua dimensão colectiva.

A actividade de rememorar perpassa pela função social do sujeito que, no presente, reconstrói os fatos passados. Tal função será exercida quando este sujeito, antes activo na sociedade de que faz parte, deixa de “contribuir” para o presente colectivo, alcançando o momento da velhice social que faz restar a ele apenas o encargo de lembrar, tornando-se a memória do grupo a que pertence. (NASCIMENTO & RAMOS, 2011).

Em África, a velhice já teve um papel de destaque na tradição oral. Era imprescindível que um contador de histórias fosse um idoso para que pudesse exercer educação sobre os mais novos, através da narração de histórias. Actividade essa que era seguida pelos griots.

Essa questão da idade é importante, pois a idade avançada, a velhice, é uma das características mais relevantes de um griot, visto que um narrador de memórias precisa ter, antes de tudo, memórias para narrar, além da sabedoria e da experiência de vida, coisas essenciais para um formador, que é o griot (Ferreira, 2012).

Os griots, que se popularizaram na África Ocidental pelo seu papel na preservação da tradição oral, são anciãos encarregues de transmitir aos mais novos as memórias do povo, da comunidade, por meio da narração de histórias.

Em Moçambique, há uma devoção aos anciãos, particularmente à sua palavra, mesmo estando apenas no domínio da oralidade. A respeito disso, Nascimento & Ramos (2011, p. 459) comentam nos seguintes termos:

As tradições vivem e se expressam no respeito aos mais-velhos, na importância atribuída à palavra falada, no costume de contar histórias e valorizar elementos da natureza, na reverência aos antepassados e demais elementos que identificam a formação de África. Observa-se que no período da independência de Moçambique, ocorrida em 1975, as manifestações literárias do país convocam a reflexão sobre o pós-guerra, o cenário modifica-se, sem, contudo, deixar de lado as questões relativas à tradição. A literatura não é mais unicamente um suporte de acções denunciadoras, mas quer cumprir também o papel de resistência à imposição cultural europeia. 

Como se pode notar, a palavra falada dos anciãos precisa da atenção de um ouvido receptor, dos mais-novos, estabelecendo-se, deste modo, uma comunicação entre o passado (anciãos) e o futuro (as crianças). São as crianças, muitas vezes vistas como bengalas dos anciãos, que deverão dar continuidade à cultura, por isso, justificar-se a protecção mútua entre os dois grupos etários.

Análise dos contos “O rei e os velhos”, “A mulher adúltera” e “ Uma avó dura com a sua neta”

No primeiro conto, da tradição oral moçambicana, o rei decide assassinar todos os anciãos do seu reino porque “só tinham ideias antigas” (Kulemba, 2016, p.23), com quais eram incapazes de embarcar para a modernidade, para o progresso. Como se fossem presas, os anciãos são caçados e mortos. Entre os anciãos que devem ser caçados e mortos está a avó de um jovem, que se enche de compaixão ante aquela barbárie. Decidiu esconder a sua avó até ao dia em que rei foi atacado por uma cobra gigante. “Passado um ano, quando ele estava a dormir, uma cobra grande entrou-lhe na boca. Aflitos, os súbditos do rei convocaram toda a população, para encontrarem uma ideia de como salvarem o chefe” (Kulemba, 2016, p.23). A população não tinha ideia nenhuma que pudesse salvar o seu rei. Nesse bloqueio, eis que aparece um jovem com seguinte proposta: “Eu tenho uma ideia. Vou chamar a minha avó, para salvar o rei” (Kulemba, 2016, p.23).

O grito do jovem deixou assustada toda a população que, em uníssono, reagiu: “Nesta região já não existem velhos, todos foram mortos pelo rei” (Kulemba, 2016, p.23). Como se deve imaginar, a população estava redondamente enganada porque o jovem trouxe a avó que estava escondida.

“Afinal o jovem, quando ouviu que o rei estava a matar todos os velhos, pegou na avó e foi guardá-la num buraco, que viu no embondeiro. Todos os dias, passou a levar comida para aquela árvore. Ele fez de tudo, para que a avó, a única pessoa que cuidava dele, não fosse morta” (KULEMBA, 2016, p.23).

As pessoas poderiam ter pegado num pau e empurrado lentamente a cobra, mas este acto poderia ser fatal. Mas que solução não traria efeitos colaterais? Isso seria revelado pela voz da experiência, a velha: “Diga-lhes para arranjarem um sapo, o qual deve ser colocado ao lado da boca do rei. A cobra, quando se aperceber da presença do sapo, irá atrás deste, deixando livre o rei”, (Kulemba, 2016, p.24), orientou a velha.

O rei é salvo pela velha, uma pessoa aparentemente frágil, desprezível, com ideias antiquadas. Isso representou uma grande lição de moral, tanto mais que o rei decidiu colocar o seu lugar à disposição e jurou nunca mais voltar a exterminar os idosos.

A situação história do extermínio dos idosos, no conto, parece inverosímil e sua produção resulta de alguma contestação a uma repugnante realidade, a desvalorização da figura do idoso e da sua memória. O narrador não nos dá evidência de como o tal acto deveria ter acontecido. Doutro modo, não temos evidências históricas de o episódio ter ocorrido em algum lugar.    

A morte massiva dos anciãos é uma hipérbole usada pelo autor para chamar atenção à desvalorização dos idosos. Era a falta da ausência de receptores, que valorizassem a sua antiguidade, que fazia com que os anciãos se sentissem mortos. E vai ser o jovem, com esse acto simbólico de convocar a avó para solução de um problema bicudo, a fazer ressuscitar todos os idosos abandonados ou, se preferirmos, mortos.

O jovem, na narrativa, representa uma das extremidades da ponte, o futuro do reino, que pode desabar se a outra parte da mesma ponte, a memória do reino, for destruída. O jovem recusa-se a fazer parte dos assassinos dos anciãos porque está avisado do ditado local: “os velhos são o celeiro das sementes”. Para os elucidar este ditado, Pampalk (2003, p. 31) comenta: “Os velhos são celeiros que guardam as experiências da vida e a sabedoria das gerações passadas e as transmitem às gerações seguintes. É-lhes devido respeito e atenção, pois, o seu conselho faltar ou se não forem ouvidos, o clã morreria”.

Essas experiências de vida solicitadas por um outro jovem a também um outro ancião no conto “a mulher adúltera”. “Vovô, para eu chegar à sua idade, o que eu devo fazer?”, quis saber o jovem, cujo pai tinha morrido, precisando de alguém que o fizesse crescer até chegar à velhice. Os conselhos são providenciais, decisivos e resumem-se nas linhas que se seguem: “Meu neto, para tu chegares à minha idade, quando estiveres a conversar com as pessoas apenas falas de ti, não fales de pessoas alheias. (…) Quando alguém te servir algo de comer, não podes negar”, (p.41).

Sem imaginar, este passa por maus bocados na casa do tio, irmão do pai. A tia, esposa do tio, vivia maltratando-o, sobretudo depois de a flagrar a cometer adultério:

O sobrinho, quando chegou à casa, foi directamente ao quarto. Abriu a porta e viu a tia deitada com um outro homem. Como se não tivesse visto nada, entrou no quarto, levou o dinheiro, saiu, fechou a porta e foi entregar ao tio. Como lhe tinha sido dito pelo primeiro velho, para se chegar à velhice, apenas se deve falar de si e não de outras pessoas. Portanto, ele não disse nada do que tinha visto ao tio (Kulemba, 2016, p. 41).

Mas a tia manteve-se desconfiada, tanto mais que contratou pessoas para que lhe assassinassem o sobrinho, mas graças aos ensinamentos do velho, os planos dessa tia fracassaram redondamente:

A tia, para acabar com o problema, contratou um bandido, para que lhe assassinasse o sobrinho. Tudo aconteceria no mato. O rapaz iria ao mato buscar lenha, no fim do dia. O bandido, logo que ouvisse um movimento estranho no mato, devia matar a pessoa (…) Quando estava quase a escurecer, a senhora mandou o sobrinho para ir àquela mata. Mas pelo caminho, o rapaz foi convidado para comer mandioca numa casa. Recordando-se da lição que aprendera do segundo velho, aceitou o convite. Entrou na tal casa, e esperou que a mandioca cozesse, para comer. (…) Passado algum tempo, a tia do rapaz achou por bem mandar o filho, para procurar pelo sobrinho, na mata. Estava segura de que o sobrinho já tinha sido morto pelo bandido (…) Quando o filho daquela senhora chegou à mata, o bandido, que já estava à espera de um movimento estranho, matou o miúdo. Ficou feliz por ter cumprido a sua missão, pois receberia boa quantia de dinheiro pelo trabalho feito.

O bandido se enganou na “encomenda” e o sobrinho escapou à morte. Os conselhos do velho permitiram que o jovem ficasse salvo.

De resto, como se pode depreender, no primeiro conto é o jovem que salva a velha, mas no segundo é o velho que salva o jovem, o que certamente demonstra essa cumplicidade entre a infância e a velhice nas narrativas tradicionais.

Os anciãos, que, como se disse inúmeras vezes, são a memória colectiva sempre viram nos netos a sua protecção, a sua segurança social, daí que pressionem os filhos para que procriem, celebrando o nascimento de cada criança como se fosse um acto único. Algumas vezes pedem ou exigem aos filhos que lhes entregue os netos para criar e lhes façam companhia.

No livro “Mphyanga?”, José Pampalk traz-nos um conto tradicional (uma avó dura com a sua neta) em que uma velha recebeu uma neta e passaram a viver juntas. Mas como anciã temia que a neta a abandonasse, cortava-lhe as pernas e só lhas colocava quando a quisesse mandar:

“Mas a velhota andava preocupada, temendo que um dia qualquer a jovem fugisse para a casa dos seus pais. Como, porém, estava tão determinada em manter a neta ao pé dela, cortou-lhe as pernas, levou-as e escondeu-as na sua casa numa panela grande que servia para fazer cerveja. Assim, a pequena não tinha a possibilidade de se afastar da velha”. (Pampalk, 2008, p. 298).

Esse episódio, que também parece inverosímil, a retrata a solidão a que os anciãos estão votados pelos filhos e a reivindicação que os mesmos fazem para que lhes concedam netos, estejam presos a ales para que o futuro seja garantido. É como se dessa prisão das pessoas das faixas etárias opostas nascesse a liberdade para sempre.

 

Considerações finais

A literatura oral está intimamente ligada ao retrato dos fenómenos sociais, quer condenando-os, quer corroborando-os. Deste modo, nos três contos tradicionais analisados, constatamos que, pelo facto de os anciãos serem rejeitados por muitas pessoas, as narrativas tradicionais produzidas acabam sendo influenciadas pela rejeição, algumas vezes, da figura do velho, e noutras da figura do menino, sobretudo órfãos.

A cumplicidade existente entre os anciãos e as crianças, no corpus de texto analisado, resulta da fragilidade a que estas duas camadas etárias estão expostas. Ficam vulneráveis crianças que perdem os entes queridos. De igual modo, ficam na mesma situação os idosos depois de perder a força braçal.

A partir dos três contos analisados, conseguimos compreender a evolução histórica da relação entre a velhice e a infância.

Notamos como as histórias, contadas à volta da fogueira, ajudavam a estreitar essa relação, fazendo com que a voz do ancião se tornasse inútil na ausência de um ouvido, de um neto atento que pudesse dar continuidade à obra do velho.

 

Bibliografia

FERREIRA, A. (2012) “Recordar é preciso”: considerações sobre a figura do griot e a importância de suas narrativas na formação da memória coletiva afro-brasileira. Disponível em: http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/emtese/article/view/3813, acessado em 25 de Agosto

KULEMBA, A. (2016). À volta da fogueira: vencedores do concurso de redacção-Kulemba 2016. Beira: Fundza.

NASCIMENTO, L & RAMOS, M. (2011). A memória dos velhos e a valorização da tradição na literatura africana: algumas leituras. Disponível em:

http://www.portaldeperiodicos.unisul.br/index.php/Critica_Cultural/article/download/775/pdf_28 acessado em 25 de Agosto

OLIVEIRA, C. (2011) Infância e Velhice: Memória e Literatura. Disponível em: http://www.letras.ufrj.br/neolatinas/media/publicacoes/cadernos/a5n5/litcult/cristiane_oliveira.pdf, acessado em 26 de Agosto.

PAMPALK, J. (2003). Nzerumbawiri: provérbios sena. Maputo: Paulinas.

PAMPALK, J. (2008). Mphyanga: contos sena. Maputo: Paulinas.

 ROSA, L. (2014). Contos africanos e nganos: identidade moçambicana. Disponível em: http://revistas.fw.uri.br/index.php/literaturaemdebate/article/download/1076/1700 acessado em 23 de Agosto.

    

    

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