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Cinzas de Cão: ensaios críticos de literatura é o livro de ensaios críticos de Literatura Moçambicana do Professor Doutor Martins Mapera (de nome completo Martins José Chelene Mapera). Debruça-se na análise crítica das marcas socioculturais e identitárias  nos  livros Nós matámos o cão-tinhoso! (2014, reedição) de Luís Bernardo Honwana, O sonho de Alima (um dos contos de Antologia de Contos de 2013) de Lília Momplé, O regresso do morto (1997) de Suleiman Cassamo, Terra Sonâmbula (2002, 8ª ed.), Jesusalém (2009, 7ª ed.) e O bebedor de horizontes (2017) de Mia Couto, todos escritores moçambicanos renomados, e Chuva Braba (1956) do cabo-verdiano Manuel Lopes.

Com uma escrita polida, Mapera excisa, com delicadeza, as entranhas das obras literárias de escritores contemporâneos mais celebrados em Moçambique. Por sinal, crítica literária é um dos elementos que mais fazem falta na Literatura Moçambicana. "A crítica é a função da arte, pois esta não serve apenas os interesses da estética como finalidade única. Ela extravasa os limites da beleza e cruza os meandros da subjectividade e criatividade espontâneas do autor" (p. 44). E é exactamente isso o que Mapera faz neste Cinzas de Cão: ele desbrava os limites (inesgotáveis) da subjectividade e criatividade desses escritores e acasala-lhes com os aspectos socioculturais do nosso país. A título de exemplo, a noite sendo vista como “um pássaro de mau agoiro” e o mar como um lugar (mágico) repleto de misticismo em Terra Sonâmbula e Chuva Braba. “Mas a crítica não deve nunca dominar a criatividade, pelo contrário, estes dois elementos da arte literária cruzam-se no espaço de interpretação, e riem-se junto no abraço da subjectividade” (p. 64). De facto, o que Mapera faz é colocar juízos de valores nos vários aspectos presentes nas obras em causa sem, no entanto, tentar recorrer a um reducionismo descabido.

Enfim, Cinzas de Cão: ensaios critícos de literatura é uma investida acertada no panorama literário actual. Mapera, que também é poeta que quis chamar-se Mar Zé Tinshel, mostra aqui o seu lado camaleão ao costurar, com tamanha excelência, os fios da criatividade literária sob os tecidos sociais, até porque a Literatura é um espelho através da qual a sociedade vê a si mesma. Mapera é um membro desta sociedade e na literatura ele vê a si mesmo e o seu povo.

Manuel Gimo

Bipolaridade do Amor é o livro de estreia da moçambicana Karina Jamal (de nome completo Jassira Karina Amade Jamal). Uma colectânea de poemas românticos. Um viva ao amor, este sentimento inexplicável, porém intrinsecamente ligado aos seres conscientes e sensíveis. 57 poemas, uns longos e outros curtos, figuram nesta obra com uma variedade de temáticas: alegria, tristeza, raiva, superação, saudades, e por aí.

Dentre muitas características da “Bipolaridade” destacam-se as imprevisíveis alterações do humor, que implicam ora em momentos de euforia extrema ora em momentos de depressão profunda, sem motivos aparentes. Afinal, o Amor também é bipolar. Ou sofrem de transtorno (afectivo) bipolar aqueles que decidem amar. Ora quer-se que o amado fique, ora quer-se que este parta. Apaixona-se num momento e desapaixona-se no outro. “(...)Todo santo dia nego que te amo, nego a todos que isto cresce, porque todos os dias, tenho medo de te perder. / (...) Na verdade, eu nem sei se te quero, não sei se te espero. / (...)No fundo, eu sei que te amo. Mas eu ainda nego. Ainda minto... Porque não sei se te espero” (p. 7).  Num momento, encontra-se em estado de tristeza profunda, num outro em plena euforia. (...) Chegou um momento em que eu parei tudo, parei no espaço. / Nada me satisfazia, nada me completava, era como uma pasta vazia, / Daquelas de couro, dura por fora e sem nada por dentro / (...) Hoje não sou aquela pasta de couro, dura por fora e vazia por dentro / Hoje eu sou completa, preenchida e tão leve como um lençol de seda.” (p. 13). São essas as vicissitudes que se permeiam nos poemas de Karina Jamal, a quem  ouso chamar apenas pelo primeiro nome daqui em diante, e não pelo apelido que seria o mais aconselhavél. Facto é, é difícil não ser amigo duma pessoa que entorna a tinta da sua caneta num papel com tamanha paixão.

Há aqui uma ressalva, no entanto. A ideia de Bipolaridade remete-nos a uma outra acepção, a de algo tendo dois pólos contrários. Isto é, o Amor é bipolar no momento que há necessidade de haver um elo entre essas duas extremidades contrárias: os dois amantes. O Amor é a dois. Está Karina a dizer que os dois implicados têm de ser amantes siameses, compartilhando uma afeição mútua e nenhum dos dois apelando ao individualismo? Ora vejamos:

“(...) Quantas vezes dividi o que eu não tinha, para ver um pouco de alegria nos teus olhos/ Eu passei frio, passei fome, para te dar o melhor de mim/ Mas tu não sabes, tu não vês. Eu ainda sou invisível aos teus olhos” (p. 24).

Nota-se neste e nos demais poemas da Karina a imprescindibilidade da reciprocidade do sentimento daqueles que se entregam aos suspiros do amor. Karina insiste num amor em que tem que ser a dois, ambos se entregando à paixão mas não dum modo obsessivo. O amor é uma obra de duas pessoas.

Há um quê de pessoal nos pitorescos poemas da Karina, talvez seja por isso que são cheios de vida e claro de amor, com o perdão do trocadilho. Karina banaliza as situações corriqueiras, comuns num relacionamento, numa linguagem que não se vale de nenhum tecnicismo infundado, isto é, ela usa palavras banais, por mais que sejam revestidas de um véu  poético, para falar do amor, que não é só um sentimento mas comportamento. É incontrovertível que qualquer um que se debruce nesses poemas, termina o livro apaixonado não só pelos poemas mas também pela Karina Jamal.

Manuel Gimo

Acordar nas primeiras horas da aurora antes que o Sol cogite em lançar seus primeiros sinais de raios de luz. Lutar para apanhar um (leia-se pendurar num) dos sobrelotados “chapas” nas paragens entulhadas de gente da desassossegada Maputo para chegar ao serviço a tempo, evitando receber uma chuva de reprimendas do patrão por um eventual atraso. Findas as horas laborais, correr para escola para ter aulas de Português. E, finalmente, voltar, de novo, a lutar por um lugar nos chapas para chegar a casa para um repouso sepulcral.

Este é o dilema do jovem Hohlo, natural de Gaza e que se mudou para Maputo em busca de melhores condições de vida. Hohlo é protagonista do segundo romance do escritor moçambicano Manuel Mutimucuio, Moçambique com Z de Zarolho. O primeiro foi Visão (2017). Ambas as obras foram publicadas pela Editorial Fundza.

Hohlo, empregado doméstico almeja ascender a uma vida socioeconómica estável através do domínio da Língua Portuguesa, língua oficial do país. É dominada maioritariamente pela minoria urbana e é língua segunda língua ou de fraco domínio (ou de domínio nenhum) para a maioria da população rural. O sonho do nosso protagonista vai por terra abaixo com a introdução do Inglês como língua oficial do país. Se Hohlo não domina o Português, que dizer do Inglês? Concomitantemente, Djassi Costa, patrão de Hohlo e deputado pela bancada do partido no poder na Assembleia da República (AR), está disposto a defender a permanência da moribunda Língua Portuguesa como língua oficial, em nome da identidade nacional e legado histórico-cultural. E como a aprovação da lei para a introdução da nova língua é certa, verá as consequências que o seu posicionamento acarretará na sua vida profissional e pessoal.

Mutimucuio mostra, em Moçambique com Z de Zarolho, o seu arrojo para uma crítica contundente e incisiva no panorama sociopolítico e económico de Moçambique. A emergência da Língua Inglesa como língua franca no mundo é um fenómeno que traz consequências, não só no ponto de vista linguístico (com o surgimento de estrangeirismos e empréstimos linguísticos, alguns falam de “enriquecimento do léxico” levando em conta o dinamismo da língua, e outros falam de “invasão linguística”) mas também no ponto de vista social e político, uma vez que o Inglês é a língua de diplomacia e de comércio, como argumenta um deputado no parlamento: “Até o Primeiro-Ministro português quando está em missões diplomáticas fala em Inglês. Quem somos nós para defendermos a língua deles?” (p. 35).

Mutimucuio traz um debate fervoroso na esfera sociolinguística e cultural de Moçambique. No livro, a ideia do Português como língua de Unidade Nacional é cheia de suspicácias. É certo que o Português é uma herança do colonialismo. Um fantasma do antigo patrão que insiste ainda em decidir os destinos da nação. É daí que surge o projecto de lei do governo: adopção do Inglês como língua oficial, como o meio de abrir as comportas do mundo moderno para o país. Como argumenta um deputado: "Ao adoptarmos o Português como nossa língua, não só legitimamos o colonialismo, como também escolhemos perpetuar a pobreza que nos legou. O Inglês, por outro lado, é a língua franca da economia moderna. Se quisermos que o século XXI não nos passe ao lado, temos que investir seriamente na ciência, na tecnologia e, acima de tudo, na língua pela qual os livros e os computadores estão codificados." (pp. 34 - 35).

Contudo, a luta dos que pensam diferente, personificados na figura de Djassi, não é infrutífera. Afinal, a Língua Portuguesa é um trofeu, um espólio de guerra. É nossa na medida que a usamos à nossa maneira espelhando a nossa realidade sociocultural, política e económica. Isto é, ela já é uma língua que nos identifica como um povo. Ela é um símbolo de identidade nacional. Outrossim, já há cá falantes nativos desta língua.

“ [...] Esta língua, o Português, que uso para fazer esta comunicação, a mesma em que foi escrita a proposta de lei que agora discutimos, não nasceu nas terras de Ngungunhana, ou na planície dos Senas, muito menos no planalto dos Macondes, mas é nossa, foi conquistada com o sangue dos melhores filhos desta nação. Jogá-la ao lixo sob pretexto de espevitar o desenvolvimento é negar as heranças de Eduardo Mondlane e Samora Machel." (pp. 32 - 33), diz Djassi na AR. Se banirmos a língua de Camões e adoptarmos a língua do Shakespeare, “nos sentiremos estrangeiros na nossa própria terra” (p. 56) pontapeia um motorista de chapa-cem.

Fora o Moçambique zarolho de Mutimucuio, no Moçambique real, onde debates sobre a codificação, padronização, promoção e oficialização das línguas bantu, que sempre foram relegadas à informalidade, no espaço geográfico conhecido como Moçambique ainda são motivos de controvérsias e cepticismo, a ideia da Língua Inglesa como nossa língua oficial (ou como uma das nossas línguas oficiais) é sinistra mas não quimérica.

Enfim, Moçambique com Z de Zarolho é audacioso, agradável, engraçado e tocador. Não entretém apenas, tira-nos da zona de conforto e faz-nos reflectir e repensar a actual situação sociocultural e linguística do país. Uma leitura mais que bem-vinda de tão maravilhosa!

Manuel Gimo

A Editorial Fundza é uma editora moçambicana que procura dar oportunidade e visibilidade aos novos escritores moçambicanos, agenciando-os para que se tornem escritores de sucesso.

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