Há autores que nascem de uma urgência interior e outros que escrevem porque sentem o peso do mundo a chamá-los à palavra. Adelino Albano Luís é as duas coisas. A sua escrita reflecte uma inquietação constante, uma busca por sentido num país ainda em reconciliação com as próprias feridas. Com Maratona para o precipício, reafirma-se como uma das vozes mais autênticas da literatura moçambicana contemporânea, abordando, nesta entrevista, o processo de criação, o papel do escritor e o compromisso de dar voz aos silenciados.
O que o motivou a escrever Maratona para o precipício e a escolher o conto como forma de expressão?
Maratona para o precipício nasceu de forma espontânea, como quase tudo o que escrevo. Surgiu do meu amor pela leitura e da necessidade de traduzir em palavras os meus medos, as minhas inquietações, as minhas memórias… enfim, tudo o que se apresenta à minha volta. Quanto ao conto, acho que é o género literário em que me sinto mais à vontade e com maior liberdade para dizer o que me atravessa a alma. Sou contista.

Muitos contos têm uma forte ligação com a realidade social moçambicana. Como foi o seu processo de transformar factos ou observações do quotidiano em narrativa literária?
É simples. Afinal, eu escrevo para desabafar, para tentar compreender o que somos e o que poderíamos ser, para incomodar, para questionar, para divertir, para matar o tédio… enfim, para não morrer. E, nesse processo, os factos do quotidiano transformam-se em matéria para os meus textos — matéria para a ficção, mas sem deixarem de carregar a verdade do real. A literatura, para mim, é uma espécie de terapia, uma catarse.
Qual foi o maior desafio em equilibrar crítica social e dimensão literária sem cair no panfletarismo?
Antes de mais, é preciso dizer o seguinte: os meus textos não seguem nenhuma corrente artística ou moralista/filosófica. Se alguém identificar algo do género, é mera coincidência. Evito, de todo, pregar ou moralizar; procuro apenas mostrar. E acredito que, quando a dor e a injustiça são contadas com honestidade, como no conto “Não estamos em guerra”, a crítica surge naturalmente, sem precisar de manifesto.
O livro mostra personagens marginalizadas — mulheres, pobres, loucos, camponeses. O que representa dar voz a estas figuras sociais?
Justiça. Essas vozes constituem a maioria no nosso país. É o nosso povo. Somos, precisamente, uma sociedade de pobres, camponeses e loucos marginalizados. Vivemos num Moçambique de muitos silêncios, e acredito que o escritor tem o dever de rompê-los. Dar voz a essas figuras é, de algum modo, devolver-lhes a dignidade, prestar-lhes justiça.
Em alguns contos, como o de Juvêncio, há uma ironia amarga sobre como a sociedade procura culpados. O que isso diz sobre a condição humana e o contexto moçambicano?
O conto “O terrorista com etiqueta”, onde falo do Juvêncio, é, talvez, o texto mais triste que já escrevi. Ele mostra o quanto somos capazes de procurar culpados onde não existem — talvez por medo de enfrentar as verdadeiras causas do sofrimento. É um retrato da nossa humanidade ferida…
Lirane, protagonista de Maratona para o precipício, é uma jovem de 17 anos que enfrenta seca, perda e violência doméstica. O que ela simboliza para si?
Lirane é símbolo da juventude esquecida, das meninas que crescem à margem, sem voz nem amparo. No texto é Lirane, mas sei que existem, neste país, várias Marias e Joanas que, como ela, enfrentam, em silêncio, a dureza de uma vida injusta e miserável.
Arcolino Pires, que se torna mito após a cheia, representa um messias popular. Como nasceu esta figura e que relação tem com a tradição oral africana?
Sou profundamente fascinado pelos mitos e pela tradição oral africana. Arcolino Pires nasce desse fascínio e é uma homenagem à sabedoria ancestral que moldou a nossa identidade. Ele encarna o poder do mito como força colectiva, como memória viva que nos liga às origens e dá sentido ao que somos.
Quais são os autores mais o influenciam?
Mia Couto é, sem dúvidas, a minha maior influência. Mas também admiro profundamente escritores como Goethe, autor de Os Sofrimentos do Jovem Werther; os poetas trágicos da Grécia Antiga, sobretudo Sófocles e Ésquilo; Suleiman Cassamo, com o seu clássico O Regresso do Morto; e os contos de Ambrose Bierce e Edgar Allan Poe. Além deles, sou tocado por contadores brasileiros como Odilon Ramos, Jaime Caetano e Rolando Boldrin — poetas gaúchos que cultivam a arte de narrar com simplicidade e emoção. Todos eles, à sua maneira, alimentam o meu modo de viver a escrita.
O título Maratona para o precipício sugere um destino colectivo inevitável. Para si, ainda há esperança de mudança ou é uma metáfora do caminho actual da humanidade?
O título é, sobretudo, um alerta. Fala de um percurso colectivo que pode, sim, conduzir ao abismo, mas também aponta para a urgência de mudar o rumo. Escrevi o livro acreditando que ainda há tempo. A esperança é o que me move. E nisto, partilho a fé do Professor Mazula, quando diz: “É preciso ter fé no nosso país.” A situação dos rios em Manica serve de indicativo. Precisamos mudar, porque o precipício está à vista.
Qual é o significado de publicar este livro pela Editora Fundza?
A Fundza já não é apenas uma editora. É a minha casa. E é sempre uma alegria sentir-me, cada vez mais, parte desta família.



