Maputo, sob as suas sombras, os seus becos e o rumor das suas noites, é o cenário que serve de palco à nova obra de Albert Dalela. Escadaria de Cadáveres desce aos subterrâneos da alma humana e ascende ao topo da corrupção, numa cidade onde os mortos falam através dos vivos.
Nesta conversa, o escritor abre as portas do seu universo literário e fala sobre o fascínio pelo policial, o papel político da literatura, e as cicatrizes que o real deixa sobre a ficção.
Escadaria de Cadáveres mergulha na escuridão urbana de Maputo, entre detectives, corrupção e miséria humana. Que impulso o levou a escrever esta história?
Sempre fui fascinado pela literatura policial e pela forma com que o mundo do crime é abordado pelos mestres do género – Sir Arthur Conan Doyle, Agatha Christie, Edgar Allen Poe, Patricia Highsmith. Sou um leitor fiel de romances policiais e embebedo-me com os romances de Francisco José Viegas, Leonardo Padura ou Pepetela, e tenho lido, com admiração infindável, os romances dos mestres Lawrence Block e Donald Westlake. No entanto, para que embarcasse nesta aventura, inspirei-me na realidade dos nossos dias, com o objectivo de desenhar um cenário sombrio que nos pudesse alertar sobre a degradação dos valores morais, numa altura em que o respeito pela vida humana parece estar em crise. Ou seja, descrevi este policial na intenção de denunciar a corrupção da alma humana, tendo em conta que problemas individuais (de carácter existencial) podem contribuir para a degradação da colectividade. Esta ambição não finda neste projecto, dado que este livro é o primeiro de um total de quatro “thrillers policias”, que os denomino “Quarteto Criminal de Maputo.”

O livro abre com um crime brutal, mas rapidamente torna-se um retrato psicológico de um homem em ruína. Quando começou a escrever, imaginava-o como um romance policial ou como uma reflexão sobre a decadência humana?
Sempre soube que seria um romance policial, embora não tivesse noção dos comportamentos que o protagonista adoptaria ao longo da narrativa. Para mim, a literatura serve, em última instância, para debruçar-se sobre a decadência humana nas suas variadas formas, como se ela fosse uma espécie de espelho que constantemente transmite o reflexo da nossa imperfeição. A minha escrita sempre intentou reflectir sobre a decadência humana, tal como o fizeram escritores como Dostoiévski, Kafka, Saramago, Camus, Sartre, Paul Auster, John Fante, entre outros. Independentemente do género textual, a literatura deve sempre preocupar-se em debruçar-se sobre aquilo que a sociedade finge não ver, incluindo a própria decadência humana.
3. Há uma insistência na ideia de corrupção e desumanização, tanto no Estado como no indivíduo. Acha que Escadaria de Cadáveres é também uma metáfora política do país?
A literatura, enquanto actividade intelectual, não se dissocia do pensamento político, dado que a própria política determina o destino da sociedade em todas as vertentes. Eu diria que pensar e escrever constituem, de alguma forma, um mecanismo de mergulhar o dedo na política, dado que o Homem é por si só um “animal político”, como disse Aristóteles. O mundo todo, enquanto um Estado-maior da espécie humana, não está bem, é só ligar a TV e ver o noticiário… há guerras, genocídios, sequestros, acidentes, desastres naturais, terrorismos, racismos, autoritarismos, todo o tipo de “ismos” nocivos. Desta feita, a desumanização está em todos os lados, fora e dentro de Moçambique. Pensei nestas degradações e corrupções para esboçar esta “Escadaria.”
4. Acredita que, através da literatura, é possível despertar consciência num país onde o crime e a corrupção são parte do quotidiano?
Sim, acredito que a literatura desperta a consciência, mas à sua maneira. Diferente doutras artes populares – como a música e a dança – ela trabalha lentamente como se estivesse no silêncio, principalmente num país como Moçambique, onde os índices de leitura são tremendamente baixos e lastimáveis. Há sempre uma consciência que desperta. Nós, leitores, somos a prova viva da força que a literatura tem para transformar. O simples acto de ler literatura é por si só heróico, principalmente, nesta sociedade capturada pelas redes sociais, guerras digitais e loucuras que se fazem passar por inteligência artificial.
5. A morte das trigémeas e o caso do “palhaço assassino” coexistem na trama, mas há um fio subterrâneo que liga todos os crimes: a ideia de repetição e de vazio moral. O que simbolizam, para si, estas mortes?
Nunca pensei que os crimes (principalmente feminicídios) que assolam o país pudessem atingir os actuais estágios. Criei as trigémeas com o objectivo de robustecer o enredo que, desde o princípio, mostrava-se desafiante. Um policial de suspense obriga o escritor a procurar mecanismos capazes de transformar o próprio suspense em protagonista dentro da narrativa. Assim sendo, as trigémeas simbolizam a complexidade do enredo policial. Entretanto, têm também o ambicioso papel de prender o leitor, deixá-lo sem fôlego mesmo quando estiver cansado de tentar descortinar o “puzzle.”
6. Há uma passagem marcante em que o narrador, ao ver o corpo mutilado de uma mulher, descreve o acto com frieza e ao mesmo tempo com fascínio. Como equilibrou, enquanto escritor, o horror e a estética?
Para mim, o detalhe é crucial para que haja descrição. Para que o leitor veja com a mente e sinta com o coração, é preciso que esteja fascinado, como se nalgum momento abandonasse o mundo sensível para residir num supersensível. O leitor deve sentir-se seduzido e ludibriado para que continue a ler, o policial exige isso. A descrição deve ser uma espécie de ópio para quem saboreia a literatura. O horror e a estética andam de mãos dadas, são antónimos, mas irmãos inseparáveis; é só ver, por exemplo, filmes de Hitchcock, Tarantino ou Scorsese.
7. Escadaria de Cadáveres parece desmontar a própria ideia de herói: todos são, de algum modo, culpados ou falhados. Era seu propósito escrever uma história sem inocentes?
Parto sempre do princípio que a vida real não é feita de heróis imbatíveis. Os heróis são, de alguma forma, vilões. Aprecio o heroísmo sob o ponto de vista simbólico, quando se pretende defender uma ideia, mas também sei que heróis nem sempre se saem vencedores; pensemos, por exemplo, em Gregor Samsa ou Raskolnikóv. Mas já que estamos perante um policial, pensemos, também, em Matthew Scudder, um dos detectives criados por Lawrence Block. Estes personagens criam-te amor e ódio, tu não sabes se vale a pena amá-los ou detestá-los. Aí está o poder da literatura: gerar sentimentos diversos e complexos.
8. O romance está repleto de referências literárias e cinematográficas, de Saramago a Hitchcock, de Joker a Agatha Christie. Que papel desempenham essas influências no modo como constrói o ritmo e a atmosfera da obra?
Sou apegado à literatura, ao cinema e à música. Estas artes influenciam o meu modo de ser e estar, moldam continuamente a forma como vejo a vida e concebo a escrita literária. A minha literatura é constantemente assombrada por figuras que admiro. As citações, desta feita, constituem uma espécie de agradecimento, em reconhecimento ao papel que a obra destes artistas desempenha sobre mim. Involuntariamente – quando me encontro a escrever – surge-me um personagem que assiste a um filme, lê um livro ou escuta uma música, (ou mesmo ideias). Às vezes, olho para os meus livros como se fossem álbuns musicais ou longas-metragens, provavelmente por ter filho do Hip Hop como ambições de, um dia, escrever para o cinema.
9. Por fim, gostaria de lhe perguntar sobre a dedicatória “Para Evergreen”. Há uma melancolia contida aí. Quem ou o que é esse “Evergreen” no contexto de um livro onde tudo parece perecível?
Esta é a mais simples pergunta de responder. “Evergreen” constitui título de uma música pertencente a uma cantora americana que responde ao nome de Yebba. Eu e a minha companheira amamos a música em alusão, cantamo-la e alegramo-nos ao escutá-la. Assim sendo, emprestei o termo para denominar a minha companheira, que também é minha assistente de comunicação e leitora número zero de todos os meus livros, incluindo os vários que ainda não foram publicados. Neste caso, mesmo quando o mundo parece ruir, há sempre “Evergreen” para um novo dia.

Fotografias: Ekibal Seda


