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O poeta (além) do nosso tempo

Craveirinha é uma voz do nosso tempo e da nossa circunstância.    

in Crónica dos anos da peste I, Eugénio Lisboa.

Por José dos Remédios

Ainda há muito que se pode dizer sobre a escrita de José Craveirinha. Partindo desta premissa, e no ano que coincide com o centenário de nascimento do poeta-mor da literatura moçambicana, decidimos celebrá-lo, estudando a sua escrita. Necessariamente, propomo-nos este exercício por acreditarmos que a obra de um escritor só pode sobreviver ao tempo quanto mais for discutida e partilhada. E a troca de ideias, neste contexto, é sempre feita de forma plural, respeitando-se as diferentes percepções sobre o processo criativo de uma das principais referências artísticas nacionais. Moçambique reconheceu-lhe esse estatuto de especial cultor da palavra em vida, ao torná-lo primeiro escritor com o título de Herói Nacional.

A edição do livro José Craveirinha: a voz do nosso tempo constitui uma forma de reconhecer a capacidade de o poeta pensar o futuro através do seu contexto. Porque o autor soube distintamente ser Poeta, prender o tempo, a paisagem ideológica e sociocultural moçambicana, voando a partir daí para outros lugares do planeta, aqui o lembramos mesmo a propósito dos 100 anos do seu nascimento (28 de Maio de 1922).

Como bem afirma Eugénio Lisboa, no seu livro de ensaios Crónica dos anos da peste I, José Craveirinha é uma voz do nosso tempo e da nossa circunstância e, como tal, sedimenta a delicadeza de morder a polpa da palavra, ora tacteando-a amorosamente, ora fazendo-a vibrar no poema. É nessa combinação que os seus xigubos, as suas karinganas e babalazes revelam-se mecanismos estéticos imprescindíveis na reconfiguração da memória de um lugar onde cabem as metamorfoses quase kafkianas do Homem e do mundo. Com isso pretendemos afirmar que, para o Poeta da Mafalala, o território da escrita literária não se circunscreve a uma redutora busca pela perfeição inerente ao que eventualmente se pode considerar “beleza”, conceito tão subjectivo quanto relativo. Todavia, na sua escrita, a “beleza” encontra-se no estabelecimento do equilíbrio entre a sensação e a emoção, entre a indignação e a sugestão e entre o que foi e está a voltar a acontecer. Ou seja, se, por um lado, a obra poética de Craveirinha é um veículo que, hoje, nos conduz ao passado, o essencial desse movimento anacrónico (a escrita) faz parte, simultaneamente, do presente e do futuro dos moçambicanos. Afinal, conforme afirmou na entrevista a Nelson Saúte, em Os habitantes da memória,“o poeta é sempre ‘os outros’. Ele quando escreve está a pensar nos outros. É por isso que as coisas às vezes coincidem e tornam-se profecias. É essa a capacidade de ele visionar o que poderá ser o amanhã”.

No livro José Craveirinha: a voz do nosso tempo, reunimos 14 artigos de ensaístas da CPLP , o que expressa, de algum modo, a grandeza e a dimensão universal do autor. Todos os textos dialogam entre si (não obstante as suas necessárias singularidades), permitindo leituras abrangentes à obra do poeta. De igual modo, a ordenação textual transmite uma tentativa de apresentação coerente e coordenada das análises feitas à obra de Craveirinha sem descurar a partilha de alguma informação biográfica.

Os artigos seleccionados para José Craveirinha: a voz do nosso tempo são: “O artista e a arte em José Craveirinha”, de Lucílio Manjate; “A tendência plástica em Karingana ua Karingana, de José Craveirinha”, de Albino Macuácua; “Karingana ua Karingana: o acto de contar sem narrar”, de Léo Cote; “A cartografia do luto em Maria, de José Craveirinha”, de Vanessa Riambau Pinheiro; “José Craveirinha: o outro grande combatente, o outro sonhador”, de Matos Matosse; “José Craveirinha e Agostinho Neto: duas vozes tutelares da poesia de Moçambique e Angola”, de Carmen Lucia Tindó Secco; “Os tambores que vibram por José Craveirinha: a nova poesia de combate de Paulina Chiziane e Deusa d’África”, de Sávio Roberto Fonseca; “José Craveirinha, conflito de consciências, entre permanência, finitude e infinitude”, de Américo Pacule; “Reler “Poema do futuro cidadão”, de José Craveirinha”, de Zito Macário Júlio e Martins Mapera; “A Revisitação da UTOPIA [OU] a MOÇAMBICANIDADE a partir de Craveirinha”, de Dionísio Bahule; “José Craveirinha: para além da utopia”, de Francisco Noa; “O fim da personagem em José Craveirinha”, de José dos Remédios; “Craveirinha na escola: em busca de uma presença efectiva”, de Óscar Fumo; e “José Craveirinha, da Mafalala, de Moçambique, do mundo”, de Rita Chaves.

* Parte do texto de apresentação publicado no livro José Craveirinha: a voz do nosso tempo.

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