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“Construir um vínculo com o outro é também formar a própria identidade”

Rafael Gallo é uma das vozes interessantes de língua portuguesa. Com a sua obra, o escritor brasileiro ultrapassou, inclusive, as fronteiras nacionais do seu país. Recentemente, ganhou o Prémio Literário José Saramago. Nesta edição, considerando algumas particularidades da sua escrita, a Soletras entrevista um autor que quer ser publicado em Moçambique para, quiçá, ampliar as margens que à literatura sempre é possível. Portanto, nas próximas linhas, temos a entrevista a um autor cujo processo criativo inclui considerar que “Construir um vínculo com o outro é também formar a própria identidade”.

Rafael Gallo, comecemos com uma certa constatação. A sua escrita prevê a inserção de episódios com crianças. Por exemplo, o romance “Rebentar” ou a história “Corte”, publicada na antologia “Do Índico e do Atlântico: contos brasileiros e moçambicanos”. O que tenciona quando investe nos eventos em que as personagens infantis condicionam a própria narrativa?

Creio que podem ser coisas muito diferentes. As crianças são indivíduos, têm cada uma sua própria biografia, seus conjuntos de particularidades. Portanto, em algum grau, abrem tantas possibilidades como quaisquer outras categorias de personagens. Nesses dois casos, por exemplo, são bastante díspares, porque o Felipe, de “Rebentar”, é uma ausência. E todas as outras personagens − em especial a mãe e protagonista do romance, Ângela − são como filtros por onde passa tudo que se relaciona com essa criança desaparecida. Não existe a criança, apenas as relações que os outros têm com a falta dela. Já em “Corte”, a criança está presente e ela é o filtro. Grande parte da tensão da história vem de testemunharmos certos actos das outras personagens ao redor de Manu, que está ali para embaralhar seus significados. Mas, exactamente por isso, potencializar esses significados, especialmente em relação ao racismo. 

Na sua escrita, as relações entre os adultos e os mais novos, digamos assim, são difíceis ou complexas. Quer que a sua ficção funcione como um lugar onde os mais crescidos possam repensar naqueles que dependem tantos deles: as crianças?

Mais do que isso, creio que seja um lugar de se pensar as relações com o outro e consigo mesmo (enquanto outro do outro), quaisquer que sejam as personagens envolvidas. Em Rebentar, por exemplo, em algum grau a mãe tem que desconstruir o vínculo com o filho desaparecido, a fim de reconstruir os demais vínculos e a própria identidade. Em “Dor fantasma”, há um movimento oposto, de certa forma: o pai se vê em uma situação na qual poderia se esperar que ele desconstruísse a própria identidade, para buscar fortalecer vínculos, em especial com o filho. Mas tudo isso envolve também suas próprias contrapartes. Quer dizer, construir um vínculo com o outro é também formar a própria identidade. Não são movimentos excludentes, são complementares. 

Investe muito na configuração de imagens através da palavra. O acto de contar tem de significar a capacidade de criação de universos (im)possíveis?

Eu acho que isso é inescapável. Se coloco em um livro que o personagem sai de casa, nem essa personagem, nem essa casa, nem esse movimento, nada disso existe como realidade. Tudo é representação, é o acto de emular um universo que, no fim de tudo, se completará através da imaginação de leitores. Por isso, quando tento investir mais na criação dessas imagens, é para que possamos, eu e leitores, ampliar o quanto esse universo imaginado pode abarcar. Aproveitar a oportunidade de lidarmos, por exemplo, com uma casa que não existe − a não ser na imaginação − para torná-la, assim, uma casa menos limitada. Uma casa real não vai além de suas paredes, seus tijolos, mas uma casa imaginada pode se tornar um monstro, a projecção de um sentimento, uma espécie de ser vivente e tanto mais. É uma vantagem da ficção, de certa forma.

Como se processa a negociação entre os seus narradores e as suas personagens ao longo da escrita?

Isso depende de cada história. Aliás, creio que grande parte da criação de histórias depende dessas escolhas, o tempo inteiro. Me parece ser mais definidor de uma história não o que acontece com certa personagem, mas o que isso representa para ela. Que ela mate alguém, por exemplo; isso pode ser um acidente do qual ela se sinta culpada, ou um alívio que a liberte, uma iniciação que a lance a outros actos de violência, etc. Embora o evento seja o mesmo, na verdade a história se constituirá de como a personagem o vivencia. Tudo pode mudar. E não existe vivência da personagem desvencilhada da forma como ela é narrada.

O que a ficção representa para si?

Uma maneira de concebermos outras formas de viver, além das limitações de nossa própria experiência. Uma relação de diálogo com o mundo e com outras possibilidades de enxergá-lo. Um enriquecimento da apreciação ou repulsa pelo que outros, ou mesmo a vida, podem nos trazer. Uma parte muito importante de nossa formação intelectual e afectiva. Um estimulante ao espírito. Uma alegria, uma comoção, uma perplexidade. 

E a possibilidade de ser lido por pessoas que nunca sequer imaginou, o que significa?

Que estarei junto com outros, de alguma maneira, em tudo isso que a ficção pode trazer.

O seu percurso literário faz-se com importantes reconhecimentos. Por exemplo, “Réveillon e outros dias” (2012) venceu o Prémio Sesc de Literatura; “Rebentar” (2015), foi laureado com o Prémio São Paulo de Literatura; e, ano passado, venceu o Prémio Saramago com o livro “Dor fantasma”. Primeiro, que margens essas distinções ampliam? Segundo, que situações positivas criam para a sua obra?

Acho que ampliação de margens é uma óptima forma de expressar. Porque é exactamente isso que fazem. Tanto no que se refere ao alcance de mais leitores, mais trocas com leitores, quanto no tocante a mim mesmo. Por conta do que representaram na minha vida esses prémios, posso dizer que eles criaram, ou recriaram, em mim a sensação de que sou mesmo escritor. De que vale a pena o que escrevo. Eu sei que não deveria depender deles para isso, não é essa a questão; porém injectaram tanta força na minha escrita, em momentos cruciais, que reconfiguraram a minha identidade perante a literatura. E isso é transformar minha identidade como um todo.  

Ao contrário do século passado, actualmente, os leitores da CPLP têm-se lido muito pouco. Há ainda esta fronteira física sobre a língua portuguesa que, como é óbvio, é feita de vários sotaques e particularidades. O que pensa sobre a mobilidade dos livros e dos autores da CPLP?

Acho que há essas questões, mas também as socioeconómicas, em especial. Em um mundo capitalista, não há fronteira mais difícil de ser transposta do que a económica. Por exemplo, aqui no Brasil são muito mais lidos os autores da França ou da Inglaterra, que são países mais distantes em quilómetros do que Angola e, obviamente, mais distantes em termos da língua. Porém, há pontes invisíveis que as grandes potências conseguem estender entre as nações, mas os países periféricos, como nós somos, não têm sucesso em fazê-lo. Ainda que falem as mesmas palavras e estejamos no campo das palavras.

O que tem chegado ao Brasil, em termos literários, de Moçambique?

Infelizmente, menos do que deveria. O Mia Couto é muito conhecido aqui, uma figura de alta popularidade e de grande sucesso editorial. A Paulina Chiziane também, porém menos entre leitores fora do chamado círculo literário. Além desses dois, seria difícil encontrar alguém que seja lido por várias pessoas. Claro, há sempre alguém que os lê, mas em termos colectivos, o alcance não é grande, infelizmente. Isso está ligado a questões de mercado, obviamente. Por sorte, há iniciativas como a citada “Do Índico e do Atlântico”, que reúne escritores daqui e daí, para publicá-los nos dois países. Precisam ser colocadas mais pontes como essa. São países irmanados, não há por que mantermos tamanha distância.

Embora tenha um conto nesse livro editado no Brasil, pela Malê, e em Moçambique, pela Fundza, no qual cabem textos de Mia Couto e Conceição Evaristo, Rafael Gallo nunca foi editado em livro em Moçambique. Tem esse interesse? Quer dizer, estou a pensar que os potenciais 200 milhões de leitores, no Brasil, nunca são suficientes.

Claro que sim, eu adoraria ser publicado em Moçambique. E curioso você mencionar esse número, que é real e ao mesmo tempo revelador de um problema aqui no Brasil. Porque temos uma enorme extensão e essa população muito numerosa, mas somos muito defasados em termos de literatura. Um autor vivo, na média, vende algo em torno de um mil a dois mil exemplares. Mesmo em editoras de grande porte, as tiragens costumam ser de dois mil exemplares. Claro que pode haver mais leituras do que vendas, mas não deixa de ser um indicativo do quão pouco temos lido de literatura.  

A literatura, para si, é mais uma evasão ou um encontro com a realidade?

Um encontro. Nunca tive muita relação com o escapismo possível em um livro. Muito pelo contrário, os momentos que mais me comovem, mais me marcam, são aqueles nos quais leio e penso: “Aí está, é assim que acontece”.

Nos últimos anos, o Brasil passou por momentos particulares, tal como Moçambique. A 1 de Janeiro iniciou um novo ciclo em Brasília, com um presidente que, no passado, aproximou tanto o Brasil aos países africanos. Também por isso, Lula é muito querido no nosso país. Tem algumas perspectivas em relação a essa reaproximação cultural, política e intelectual?

Eu espero que ela seja retomada, com mais força, inclusive, pois temos mais recursos de comunicação hoje do que no passado. E porque isso também é uma reaproximação com o próprio Brasil. Nosso país é muito mais semelhante aos países africanos do que aos Estados Unidos, por exemplo, mas há uma ilusão, muito disseminada aqui, de que teríamos uma espécie de vocação para sermos mais próximos dos Estados Unidos, dos cenários vistos nos filmes e séries de Hollywood. Isso é falso e, claro, está mais ligado a questões económicas e a uma espécie de “psicologia do capitalismo”. O mercado criando a fantasia do que devemos ser. E não à toa os EUA foram o refúgio escolhido pelo ex-presidente, foram sempre sua referência ideológica. É uma separação entre visões de mundo mesmo, muito carregadas de simbolismos, não apenas divisões de partidos ou orientações políticos, no sentido mais restrito da palavra. Há, de um lado, a percepção de que nossas origens são comuns à África, e que carregamos muitos traços e questões dessa genealogia connosco; de outro lado, uma ânsia por ser rico e corresponder a um modelo vendido nos filmes e séries que são consumidos aqui.

Uma vez perguntei ao crítico português Carlos Reis qual era a categoria narrativa decisiva (espaço, tempo, personagem, etc.) do seu ponto de vista. Disse-me que era a focalização. E para si?

Não consigo separar essas categorias. Quer dizer, a focalização é também o que forma a personagem. A personagem só existe naquilo que é narrado dela, e de que forma é narrado. Seria como querer saber o que é mais importante em uma pintura: o pincel, a tela, a tinta, ou a mão do pintor. Tudo que existe ali é a soma desses elementos. A tinta só se põe sobre a tela de tal maneira por estar naquele pincel, que a mão conduz. Fosse outro pincel, a tinta se transmitiria diferente à tela.

Aos leitores da revista Soletras, por que a literatura deve continuar a fazer parte das suas vidas?

Se é esse o desejo, deve continuar porque, não importa que razões eu desse, cada um teria as suas próprias razões, maiores para si do que quaisquer outras. E é o que basta.

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